Happening e Performance: O Corpo na Arte Contemporânea

A partir da segunda metade do século XX, a tela e o pincel deixaram de ser suficientes para dar conta das angústias, críticas e inovações da humanidade. O artista decidiu, então, usar a própria carne, voz e movimento como tela. É nesse contexto fascinante de quebra de fronteiras que surgem o Happening e a Performance, duas manifestações que transformaram a relação entre a obra de arte e o público. Frequentes no ENEM, essas linguagens exigem do estudante a compreensão de que a arte deixou de ser apenas um objeto contemplativo para se tornar uma experiência vivida.
Sumário
- A Evolução do Sentido da Arte
- As Vanguardas e o Corpo como Suporte
- O que é Performance?
- O que é Happening?
- Tabela Comparativa: Happening vs Performance
- A Arte Colaborativa e a Contracultura no Brasil
- O Corpo como Protesto Social e Identidade
- Dança Contemporânea e a Hibridização
- Mnemônicos e Dicas
- Como Cai no ENEM
- Principais Dúvidas
- Resumo Completo
- Referências
A Evolução do Sentido da Arte
Para entender por que artistas começaram a fazer performances nas ruas ou convidar o público para participar ativamente de suas obras, precisamos olhar para o retrovisor da História da Arte. O conceito de arte não é estático; ele é fluido e responde às necessidades de cada época.
- Pré-História: A arte possuía um caráter mágico-religioso. Objetos como a Vênus de Willendorf não eram feitos para enfeitar, mas sim para atrair fertilidade e tentar controlar as forças imprevisíveis da natureza.
- Antiguidade Clássica (Grécia e Roma): A arte tornou-se a representação do Belo. O conceito estava diretamente condicionado às regras de proporção, simetria e harmonia formal.
- Século XIX (Romantismo): Ocorreu um deslocamento sutil. O princípio da criação artística deixou de ser a cópia exata do mundo (a mimese clássica) e passou a focar nos sentimentos, na subjetividade e na imaginação do artista. O "Belo" desvinculou-se da harmonia estrita.
- Século XX e Pós-Modernidade: O grande ponto de virada. A arte abandonou a obrigatoriedade de representar o belo. Passou a expressar o movimento, a velocidade, o inconsciente e, acima de tudo, a provocação.
No contexto da Arte Contemporânea, podemos definir a produção artística como a permanente recriação de uma linguagem. Na transição para o século XXI, a arte reflete a fragmentação do indivíduo, os traumas das guerras, a massificação cultural e a dissolução completa das fronteiras entre o que é arte "erudita" e arte "popular".
As Vanguardas e o Corpo como Suporte
As sementes do happening e da performance não surgiram do nada nas décadas de 1960 e 1970. Elas foram plantadas no início do século XX pelas Vanguardas Europeias, especialmente pelo Dadaísmo.
Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), artistas refugiaram-se na Suíça e fundaram o famoso Cabaré Voltaire. Liderados por figuras como Hugo Ball, os dadaístas introduziram o conceito de antiarte. Se a sociedade europeia supostamente "racional" havia levado o mundo à barbárie da guerra, a arte deveria abraçar a irracionalidade, o absurdo e o caos. Eles recitavam poemas sem sentido lógico, explorando apenas a sonoridade e a visualidade dos corpos no palco.
Herdando essa rebeldia, a Arte Contemporânea das décadas de 1960 e 1970 deu ênfase definitiva ao corpo como suporte de criação. As novas linguagens passaram a misturar, de forma indissociável:
Essa "equação" conceitual mostra que não é mais possível colocar a arte em "caixinhas". Uma obra contemporânea pode ser, simultaneamente, uma pintura corporal, uma coreografia teatral e uma composição sonora.
O que é Performance?
A Performance é uma manifestação artística interdisciplinar onde o foco principal está na figura e na ação do artista (o performer). O corpo do próprio artista é o instrumento de comunicação.
Características centrais da performance:
- Planejamento: É uma ação pensada, intencional e, muitas vezes, ensaiada. O artista sabe exatamente o que quer transmitir.
- Controle: O performer coordena a exploração de visualidades, sonoridades e os limites físicos do próprio corpo.
- Público como testemunha: Embora o público esteja presente e seja afetado emocionalmente pela obra, a ação central depende primordialmente do artista, focando-se no resultado da ação.
Exemplo Clássico (Caiu no ENEM!): A artista sérvia Marina Abramović [2] é considerada a "avó da performance". Em sua obra A Artista Está Presente (MoMA, 2010), ela sentou-se silenciosamente em uma cadeira por 736 horas. Os visitantes do museu sentavam-se à sua frente, um por vez, e apenas trocavam olhares com ela. Muitas pessoas choravam. A obra era estritamente planejada, e a arte acontecia na negociação colaborativa e silenciosa de sentidos entre a artista e o espectador [9].
O que é Happening?
A palavra happening (do inglês, "acontecimento") foi cunhada no final dos anos 1950 pelo artista Allan Kaprow. Diferente da performance pura, o happening é uma obra de arte viva que depende da participação imprevisível do público para existir.
Características centrais do happening:
- O Acaso: Embora exista uma estrutura inicial ou um cenário preparado pelo artista, o desenrolar da ação é não totalmente planejado.
- Público Ativo: O observador é convidado (ou provocado) a se inserir no processo. Ele deixa de ser um mero espectador e torna-se coautor da obra.
- Processo > Resultado: No happening, a interação e a experiência do momento são muito mais importantes do que o produto final. Não sobra um "objeto" para ser pendurado na parede do museu; sobra a experiência.
Tabela Comparativa: Happening vs Performance
Para não confundir na hora da prova, observe as diferenças técnicas fundamentais:
| Característica | Performance | Happening |
|---|---|---|
| Foco principal | O artista (performer) e seus limites/expressões. | A interação coletiva e a experiência do momento. |
| Planejamento | Altamente planejada, roteirizada e intencional. | Diretrizes básicas, mas o desenrolar depende do acaso. |
| Papel do Público | Espectador ativo emocionalmente, mas raramente coautor físico. | Coautor essencial. Sem a participação do público, a obra não existe. |
| Valor da Obra | Ênfase no resultado da ação executada pelo artista. | Ênfase no processo e na imprevisibilidade do "acontecimento". |
A Arte Colaborativa e a Contracultura no Brasil
Nas décadas de 1960 e 1970, o mundo vivia sob a tensão da Guerra Fria . Nesse cenário de polarização ideológica e medo nuclear, a juventude global iniciou o movimento da Contracultura. Tratava-se de um movimento de resistência que questionava a moral conservadora, a sociedade de consumo, a Indústria Cultural e as políticas militaristas, buscando romper com o status quo [10].
No Brasil, a contracultura ganhou contornos ainda mais dramáticos devido à Ditadura Militar (iniciada em 1964). A arte tornou-se a principal arma de resistência e denúncia.
Hélio Oiticica e os Parangolés

Um dos maiores nomes da arte contemporânea brasileira é Hélio Oiticica. Ele redefiniu o papel do artista, passando a se autodenominar um propositor. Para Oiticica, o público deveria sair da passividade e participar sensorialmente da obra [9].
Sua criação mais famosa são os Parangolés [11]. Tratam-se de "capas", estandartes ou tendas feitas de tecidos coloridos, plásticos e cordas. O Parangolé pendurado num cabide não é a obra de arte. A obra de arte só acontece quando o espectador veste a capa e se movimenta (especialmente dançando samba). Através do movimento, as cores e texturas ganham vida, transformando a arte em uma experiência subjetiva, efêmera e coletiva. O Parangolé é a quintessência da arte participativa no Brasil.
Zé Celso e o Teatro Oficina
No campo das artes cênicas, José Celso Martinez Corrêa (Zé Celso) revolucionou o teatro nacional. Ele fundou o Teatro Oficina e baseou suas encenações na Antropofagia (conceito modernista de Oswald de Andrade de "devorar" as influências estrangeiras e regurgitá-las com uma identidade puramente brasileira) [8].
Em 1968, o Oficina encenou Roda Viva, peça escrita por Chico Buarque. A montagem era um caos intencional: criticava duramente a indústria cultural, a transformação do artista em produto de consumo e a moralidade hipócrita. Zé Celso promovia um Teatro Ritual, onde o palco invadia a plateia, eliminando a barreira entre atores e público. A peça foi violentamente censurada e reprimida por grupos paramilitares da ditadura.
O Corpo como Protesto Social e Identidade
A arte contemporânea também utiliza o corpo para escancarar feridas sociais, como o racismo estrutural e a desigualdade de gênero. Ao longo da história, conceitos artísticos como a caricatura foram usados tanto para reforçar estereótipos quanto para desconstruí-los.

Um exemplo brilhante, recorrente em provas recentes, é o trabalho da artista visual e pesquisadora brasileira Renata Felinto. Em sua performance em vídeo White Face and Blonde Hair (2012) [1], [3], Felinto subverte uma prática histórica profundamente racista: o blackface (onde atores brancos do século XIX pintavam o rosto de preto para ridicularizar pessoas negras).
Em sua performance, Felinto inverte a lógica. Ela, uma mulher negra, pinta seu próprio rosto de branco, coloca uma longa peruca loira e veste roupas de grife. Assim caracterizada, ela caminha ostensivamente pela rua Oscar Freire, em São Paulo (um dos metros quadrados mais caros e elitizados do país) [3].
Com essa caracterização, ela:
- Cria uma caricatura da branquitude e do status quo.
- Questiona os padrões ocidentais de beleza que impactam negativamente a autoimagem de mulheres negras.
- Denuncia o racismo estrutural, evidenciando como a sociedade encara de forma diferente a presença de corpos negros versus corpos brancos em espaços de luxo e privilégio [11].
Dança Contemporânea e a Hibridização
Além das artes plásticas e do teatro, o corpo também encontra renovação na Dança Contemporânea. Surgida na segunda metade do século XX, ela não possui uma técnica única (como o ballet clássico tem). Sua palavra de ordem é a heterogeneidade [12].
A dança contemporânea mistura estéticas variadas e abraça a tecnologia. O conceito de coreografia expande-se: não é mais apenas uma sequência de passos a ser repetida perfeitamente, mas uma proposta de pesquisa de movimento [14].
Artistas como a norte-americana Trisha Brown começaram a explorar a relação do corpo com o espaço cotidiano (dançando nas laterais de prédios com equipamentos de alpinismo, por exemplo). O movimento incorpora esportes, gestos do dia a dia e rituais sagrados, reafirmando que todo e qualquer movimento humano carrega um potencial estético e político [12].
Mnemônicos e Dicas
Para não confundir as duas principais linguagens abordadas neste artigo durante o ENEM, utilize o mnemônico do "Corpo na Arte": PER-HAP.
- PERformance = Planejada, Ensaiada, Resultado no artista. (Lembre-se: O PERformer tem o controle).
- HAPpening = Há Acaso e Participação. (Lembre-se: O público faz acontecer).
Dica de Ouro: Se a questão mostrar uma imagem de uma pessoa apenas assistindo (mesmo que chorando, como em Marina Abramović), é PERFORMANCE. Se a questão mostrar o público construindo a obra, mexendo nela, ou a obra perdendo o sentido sem o movimento do público (como os Parangolés de Hélio Oiticica), é HAPPENING / Arte Participativa.
Como Cai no ENEM
O ENEM adora a temática da Arte Contemporânea na prova de Linguagens e Códigos. As questões não pedem que você decore datas, mas sim que você compreenda a intenção do artista e a função da obra.
Principais focos de cobrança:
- Quebra da contemplação passiva: O ENEM cobra que você reconheça que a arte moderna/contemporânea exige um espectador ativo. Alternativas que falem de "contemplação passiva", "reverência aos clássicos" ou "busca pela proporção ideal" estarão sempre incorretas para essas questões.
- Arte como denúncia/crítica: Obras que abordam racismo (como as de Renata Felinto), gênero, ou repressão política. A alternativa correta geralmente fala sobre "desconstrução de estereótipos", "questionamento do status quo" ou "tensão entre classes/raças".
- O hibridismo: A mistura de linguagens (visuais, cênicas, sonoras).
Exemplo Prático (ENEM 2015): A prova trouxe um texto descrevendo a performance de Marina Abramović (A Artista Está Presente) no MoMA [8]. A questão perguntava qual era a característica dessa tendência contemporânea. A resposta correta destacava a "negociação colaborativa de sentidos entre a artista e a pessoa com quem interage" [12]. Ou seja, o olhar não é um detalhe; ele é a própria obra de arte construída em conjunto no momento do encontro.
Principais Dúvidas
Resumo Completo
A arte contemporânea revolucionou a forma de expressão ao tirar a arte das telas e colocá-la no corpo e no espaço. Influenciada pela "antiarte" do Dadaísmo e pelo contexto turbulento da Guerra Fria e das Ditaduras, a arte deixou de buscar a contemplação passiva do "Belo" para exigir do público uma postura crítica e ativa.
- Performance: Ação planejada, centrada no artista (performer) que explora visualidades e limites corporais. Ex: Marina Abramović (o público testemunha e troca olhares, interagindo no campo do sentido).
- Happening: Acontecimento que depende do acaso e da participação direta do público para se concretizar. O processo importa mais que o resultado.
- No Brasil (Contracultura):
- Hélio Oiticica: O artista vira "propositor". Cria os Parangolés (arte colaborativa onde o público veste a obra e dança).
- Zé Celso: Funda o Teatro Oficina. Traz a antropofagia e o caos provocativo (Roda Viva) contra a ditadura e a indústria cultural.
- Protesto Social: O corpo denuncia racismo e padrões. Ex: Renata Felinto e sua inversão do blackface para criticar a branquitude e o racismo estrutural.
- Dança Contemporânea: Marcada pela heterogeneidade, mistura o cotidiano ao artístico, sem técnica rígida única.
Checklist final para o ENEM:
- Compreender a mudança histórica da arte (do Belo Clássico à provocação Contemporânea).
- Saber a diferença fundamental: Performance (Planejada/Artista) vs Happening (Acaso/Público ativo).
- Conhecer o conceito de Hibridismo (mistura de linguagens artísticas).
- Identificar os Parangolés de Hélio Oiticica como ícone da arte participativa.
- Relacionar o uso do corpo na arte a críticas sobre racismo, gênero e desigualdade (ex: Renata Felinto).
Referências
- White Face and Blonde Hair - Hemispheric Institute. Artigo detalhado sobre a performance de Renata Felinto na rua Oscar Freire.
- Artes no Enem: 15 questões de artes que caíram no Enem - Toda Matéria. Análise da questão sobre a performance "A Artista Está Presente" de Marina Abramović (ENEM 2015).
- Como o 'Parangolé' de Hélio Oiticica resume o Carnaval - Folha de S.Paulo / UOL. Análise da obra de Oiticica, o conceito de propositor e a interação corporal com as cores e o espaço.
- [A Literatura do Mundo Contemporâneo e Tendências - Material Didático Base]. Referências teóricas sobre a Indústria Cultural, Massificação e Contracultura no Século XX.