Gênero Discursivo Entrevista: Estrutura, Características e Como Cai no ENEM

A entrevista é um dos gêneros discursivos mais presentes no nosso cotidiano, figurando em jornais, revistas, televisão, podcasts e plataformas digitais. Essencialmente dialógica, ela nasce da interação oral entre um entrevistador e um entrevistado com o objetivo de extrair informações, opiniões ou relatos de vida. No ENEM, dominar esse gênero é fundamental, pois as questões frequentemente cobram a identificação de marcas de oralidade, a organização em turnos de fala e a adaptação da linguagem ao público-alvo.
Sumário
- O que é o Gênero Entrevista?
- Estrutura da Entrevista Escrita
- Marcas Linguísticas e Discursivas
- A Entrevista na Divulgação Científica
- Mnemônicos e Dicas
- Como Cai no ENEM
- Principais Dúvidas
- Resumo Completo
- Referências
O que é o Gênero Entrevista?
A entrevista é um gênero de caráter predominantemente interacional e informativo. Ela pressupõe, obrigatoriamente, a existência de pelo menos dois interlocutores:
- O entrevistador: responsável por conduzir o diálogo, elaborar as perguntas e guiar o foco da conversa.
- O entrevistado: a pessoa de quem se deseja extrair informações, que pode ser uma figura pública, um especialista em determinado assunto ou uma testemunha de um fato.
Sua principal função social é informar o público, propor debates, esclarecer temas complexos e formar opiniões. Dependendo da condução, a entrevista pode ser classificada de três formas principais:
| Tipo de Entrevista | Característica Principal | Exemplo de Aplicação |
|---|---|---|
| Estruturada | Segue um roteiro rígido de perguntas pré-definidas. Não há margem para desvios. | Pesquisas de censo (IBGE), formulários médicos. |
| Semiestruturada | Possui um roteiro base, mas permite que o entrevistador faça perguntas extras a partir das respostas. | Entrevistas jornalísticas, programas de talk show. |
| Não estruturada | Não segue roteiro fixo. Flui como uma conversa espontânea e livre. | Entrevistas biográficas mais íntimas, certos podcasts. |
Estrutura da Entrevista Escrita
Embora nasça na oralidade, a entrevista é frequentemente transcrita para meios impressos ou digitais (jornais, revistas, blogs). Quando convertida para a escrita, ela assume uma estrutura razoavelmente padronizada para orientar o leitor:
- Título (e Subtítulo): O título costuma trazer uma frase de impacto (uma citação aspeada) dita pelo entrevistado, ou o tema central da conversa. O subtítulo (ou linha fina) complementa a informação principal.
- Apresentação / Contextualização: Um ou dois parágrafos introdutórios elaborados pelo repórter. Essa seção serve para:
- Apresentar quem é o entrevistado (currículo, relevância).
- Apresentar o gatilho da entrevista (por que essa pessoa está sendo entrevistada agora? Lançamento de um livro? Uma nova descoberta científica?).
- Corpo da Entrevista (Perguntas e Respostas): É o diálogo em si. Aqui ocorre a alternância de turnos de fala. Visualmente, o texto se organiza destacando quem fala a cada momento. Geralmente, as perguntas do repórter aparecem em negrito e as respostas em fonte normal.
Marcas Linguísticas e Discursivas
A transposição da fala para o papel exige cuidados editoriais. O texto da entrevista transita entre a oralidade e a escrita, o que gera características linguísticas muito específicas:
- Discurso Direto: É a reprodução fiel da fala do entrevistado. Ocorre o uso constante da primeira pessoa (eu, nós) nas respostas.
- Marcas de Oralidade: Como é um diálogo, é comum a presença de expressões coloquiais, repetições, hesitações e gírias, especialmente se a entrevista for menos formal.
- Recursos Gráficos e Pontuação: A edição tenta traduzir as emoções e pausas da fala para o texto usando sinais de pontuação e anotações. É frequente o uso de:
- Reticências (...): para indicar hesitações, pausas ou interrupções de raciocínio.
- Aspas (" "): para destacar termos irônicos, citações ou falas enfáticas.
- Parênteses ( ): utilizados pelo editor para inserir reações não verbais, como (risos), (silêncio prolongado), (chorando).

A Entrevista na Divulgação Científica
A reportagem de divulgação científica é um gênero voltado para disseminar descobertas do meio acadêmico para o público leigo. Para isso, ela utiliza fortemente as entrevistas com especialistas para conferir autoridade e credibilidade ao texto.
Nesse contexto, os cientistas entrevistados adaptam sua linguagem técnica para uma linguagem mais acessível, fazendo uso constante de metáforas e analogias. Veja como os conceitos biológicos e geográficos aparecem moldados pelo gênero entrevista:
Exemplo 1: Dinâmica Climática e Rios Voadores
Abaixo, simulamos um trecho de entrevista (semiestruturada) com um meteorologista:
Repórter da Revista: Como a umidade da Amazônia consegue chegar ao sul e sudeste do Brasil afetando nosso clima?
Meteorologista: Isso ocorre por meio do que apelidamos de "Rios Voadores". O processo começa com a evapotranspiração — as plantas da floresta liberam vapor de água. Os ventos empurram essa umidade para o oeste até ela esbarrar na Cordilheira dos Andes. Como essa cordilheira atua como uma barreira física monumental, o fluxo não consegue passar e é desviado para o Centro-Oeste, Sudeste e Sul, precipitando como chuva pelo caminho.
Neste trecho, note como o especialista usa o presente do indicativo ("ocorre", "começa", "liberam") para descrever um fenômeno científico atemporal e usa o termo analógico "Rios Voadores" para facilitar a compreensão do leitor.
Exemplo 2: Biologia e as "Formigas-Zumbi"
Repórter da Revista: A expressão "formigas-zumbi" parece ter saído de um filme de ficção. Como essa infecção funciona na vida real?
Biólogo: (Risos) Realmente parece ficção! Mas ocorre pela infecção do inseto por fungos do gênero Ophiocordyceps. O fungo penetra o exoesqueleto de quitina da formiga. Lá dentro, ele produz metabólitos secundários que agem direto no sistema nervoso central da formiga. Ela fica completamente desorientada, prende-se a uma folha e morre. Depois, o fungo esgota os nutrientes dela e libera novos esporos para reiniciar o ciclo.
Exemplo 3: A Ética da Clonagem
Repórter da Revista: Desde a ovelha Dolly, em 1996, o que mudou na ciência em relação à clonagem?
Geneticista: A Dolly foi um marco, pois foi o primeiro mamífero clonado via transferência nuclear de uma célula somática adulta. Hoje, a grande discussão não é apenas técnica, mas ética. No Brasil, por exemplo, a legislação permite clonagem de animais de interesse zootécnico (como bovinos de elite), mas proíbe estritamente a clonagem humana ou de espécies silvestres sem forte autorização governamental.
Novos Formatos: Podcasts e Vlogs Científicos
A entrevista migrou fortemente para as plataformas digitais [1]. Hoje, temos os Podcasts Científicos e Vlogs, gêneros audiovisuais onde a entrevista perde a rigidez dos jornais tradicionais e assume um tom muito mais informal. Nesses canais, pesquisadores conversam por horas em estúdios de gravação, desmistificando a ciência de forma envolvente e com altíssima presença de marcas de oralidade, gírias e interação direta com o público (o chamado chat).

Mnemônicos e Dicas
Para memorizar a estrutura obrigatória de uma entrevista clássica, lembre-se do acrônimo T.A.P.A.:
- Título (com frase chamativa/aspeada)
- Apresentação (contexto e biografia do entrevistado)
- Perguntas (e roteiro)
- Alternância de turnos (entrevistador pergunta, entrevistado responde)
Dica de Leitura para o ENEM: Quando cair uma entrevista na prova, não leia apenas pelo conteúdo. Observe como o texto foi construído. Quem domina a fala? A linguagem é culta ou coloquial? O tema exigiu que o entrevistado explicasse algum jargão?
Como Cai no ENEM
O ENEM adora textos de base jornalística. Quando a entrevista aparece na prova de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, as questões geralmente NÃO pedem para você interpretar apenas a opinião do entrevistado, mas sim focar na estrutura do gênero.
Os padrões de cobrança incluem [2]:
- Identificação dos turnos de fala: A prova costuma perguntar o que caracteriza o texto lido como uma entrevista. A resposta quase sempre gravita em torno da "organização em turnos de fala reproduzindo o diálogo entre interlocutores".
- Marcas de oralidade e hesitação: O ENEM frequentemente destaca um trecho onde há reticências ou repetição de palavras e pergunta qual o objetivo daquele recurso (geralmente, a resposta é "reproduzir as características da língua falada no texto escrito").
- Adequação linguística: Analisar se o entrevistado usou uma linguagem formal (adequada para falar de uma pesquisa séria) ou informal (se for um papo sobre entretenimento).
Pegadinha Comum: Alternativas que dizem que a entrevista escrita "elimina totalmente a oralidade" ou que "segue estritamente as regras da gramática normativa". Isso é falso! A transcrição tenta ser fiel ao que foi dito, inclusive mantendo certos desvios gramaticais para manter a naturalidade e a voz do entrevistado.
Principais Dúvidas
Resumo Completo
A entrevista é um gênero discursivo essencialmente dialógico que promove a interação entre um entrevistador e um entrevistado. Sua principal missão social é informar e promover debates, trazendo o discurso da fala (oralidade) para o texto escrito (ou audiovisual).
- Estrutura Básica:
- Título chamativo (geralmente com fala aspeada).
- Apresentação / Contextualização (o "gatilho" da conversa e quem é a pessoa).
- Corpo em formato de Pergunta e Resposta (Q&A).
- Características Discursivas:
- Presença forte de discurso direto e primeira pessoa ("eu").
- Alternância de turnos de fala (jogo de fazer e responder perguntas).
- Uso de recursos gráficos para transcrever a oralidade: parênteses
(risos), travessões, reticências.
- Na Divulgação Científica:
- É a ponte entre a linguagem técnica (acadêmica) e a linguagem acessível (público leigo).
- Especialistas usam metáforas (ex: "rios voadores", "formigas-zumbi") para explicar fenômenos.
- Podcasts e vlogs são os grandes formatos atuais.
- Checklist para o ENEM:
- Reconhecer a estrutura de turnos de fala.
- Identificar marcas de oralidade na escrita.
- Entender o nível de formalidade e a intenção comunicativa dos interlocutores.
Referências
- [1] HOFFNAGEL, J. C. A entrevista como gênero discursivo. In: Gêneros Textuais e Ensino. (Adaptado de base teórica sobre interacionismo sociodiscursivo).
- [2] Plataforma Assaad. Análise da Questão 117, ENEM 2014 PPL - Estrutura típica do gênero entrevista e marcas formais. Disponível em análise de questões do exame.
- Toda Matéria. Gênero Textual Entrevista - Características e Estrutura. Disponível em: Toda Matéria
- Brasil Escola. Enem: lista de exercícios sobre gêneros textuais. Disponível em: Brasil Escola / UOL
- Educa Mais Brasil. Entrevista - Língua Portuguesa Enem. Disponível em: Educa Mais Brasil