Questão 55 do ENEM 2024Ciências Humanas

ENEM 2024Ciências Humanas1ª aplicação

A alma funciona no meu corpo de maneira maravilhosa. Nele se aloja, certamente, mas sabe bem dele escapar: escapa para ver as coisas através da janela dos meus olhos, escapa para sonhar quando durmo, para sobreviver quando morro. Minha alma durará muito tempo e mais que muito tempo, quando meu corpo vier a apodrecer. Viva minha alma! É meu corpo luminoso, purificado, virtuoso, ágil, móvel, tépido, viçoso; é meu corpo liso, castrado, arredondado como uma bolha de sabão.

FOUCAULT, M. O corpo utópico, as heterotopias.
São Paulo: Edições N-1, 2013.

Esse texto reforça uma concepção metafísica clássica que remete a um(a)
A
pressuposto lógico.
pensamento dicotômico.
Resposta correta
C
contemplação da natureza.
D
raciocínio argumentativo.
E
crítica à individualidade
Gabarito oficial: alternativa B

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar a forma como o autor descreve a relação entre o corpo e a alma e conectar isso a conceitos clássicos da filosofia.

No texto, Michel Foucault descreve a alma como uma entidade que habita o corpo ("nele se aloja"), mas que possui uma natureza completamente diferente e independente dele. Enquanto o corpo é visto como algo temporário, limitante e perecível ("quando meu corpo vier a apodrecer"), a alma é descrita como eterna, livre e superior ("escapa para sobreviver quando morro", "luminoso, purificado").

Essa separação radical do ser humano em duas partes distintas e opostas — a matéria (corpo) e o espírito (alma) — é a base do que chamamos de dualismo psicofísico. Na filosofia clássica, pensadores como Platão e, mais tarde, René Descartes, consolidaram essa visão de que somos compostos por duas substâncias diferentes.

Quando dividimos a realidade ou um conceito em dois polos opostos e excludentes (como bem e mal, corpo e alma, luz e trevas), estamos aplicando um pensamento dicotômico. A palavra "dicotomia" vem do grego e significa literalmente "divisão em dois". É exatamente essa estrutura de pensamento que o texto reforça ao colocar corpo e alma em lados opostos da existência.

Vamos analisar por que as outras alternativas não se encaixam:

  • A) pressuposto lógico: A lógica é a área da filosofia que estuda a validade dos argumentos e a estrutura do raciocínio formal (como premissas que levam a uma conclusão). O texto não está construindo um silogismo lógico ou uma equação matemática, mas sim descrevendo a natureza do ser (uma reflexão ontológica e metafísica).
  • C) contemplação da natureza: Embora o texto mencione "ver as coisas através da janela dos meus olhos", o foco não é a observação do mundo natural externo (árvores, rios, animais), mas sim a natureza interna do indivíduo e a separação existencial entre corpo e alma.
  • D) raciocínio argumentativo: Todo texto filosófico possui algum nível de argumentação, mas essa alternativa é genérica demais e não identifica a concepção metafísica específica (a separação corpo/alma) exigida pelo comando da questão. Além disso, o trecho tem um tom muito mais poético e descritivo do que estritamente argumentativo.
  • E) crítica à individualidade: Pelo contrário, o texto exalta a individualidade ao celebrar a própria alma ("Viva minha alma!", "meu corpo luminoso"). Ele eterniza o "eu" através da sobrevivência da alma, não havendo qualquer crítica à ideia de indivíduo.

Portanto, a concepção metafísica que divide o ser humano nessas duas instâncias separadas e opostas caracteriza perfeitamente o pensamento dicotômico.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2024 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.