Questão 81 do ENEM 2023Ciências Humanas

ENEM 2023Ciências Humanas1ª aplicação

A economia das ilegalidades se reestruturou com o desenvolvimento da sociedade capitalista. A ilegalidade dos bens foi separada da ilegalidade dos direitos. Divisão que corresponde a uma oposição de classes, pois, de um lado, a ilegalidade mais acessível às classes populares será a dos bens — transferência violenta das propriedades; de outro, à burguesia, então, se reservará a ilegalidade dos direitos: a possibilidade de desviar seus próprios regulamentos e suas próprias leis; e essa grande redistribuição das ilegalidades se traduzirá até por uma especialização dos circuitos judiciários; para as ilegalidades de bens — para o roubo — os tribunais ordinários e os castigos; para as ilegalidades de direitos — fraudes, evasões fiscais, operações comerciais irregulares — jurisdições especiais com transações, acomodações, multas atenuadas etc.

FOUCAULT, M. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petropolis: Vozes, 1987

O texto apresenta uma relação de cálculo politico-econômico que caracteriza o poder punitivo por meio da
gestão das ilicitudes pelo sistema judicial.
Resposta correta
B
aplicação das sanções pelo modelo equânime.
C
supressão dos crimes pela penalização severa.
D
regulamentação dos privilégios pela justiça social.
E
repartição de vantagens pela hierarquização cultural.
Gabarito oficial: alternativa A

Resolução comentada

O texto de Michel Foucault, extraído da obra Vigiar e Punir, aborda a forma como a sociedade capitalista reestruturou o que ele chama de "economia das ilegalidades". Para resolver a questão, precisamos focar na distinção que o autor faz entre os tipos de crimes e como o sistema de justiça lida com eles.

Foucault aponta que existe uma divisão clara baseada nas classes sociais:

  • Classes populares: estão associadas à "ilegalidade dos bens", que envolve crimes como o roubo (transferência violenta de propriedades). Para esses crimes, o sistema destina os tribunais ordinários e a aplicação de castigos severos.
  • Burguesia: está associada à "ilegalidade dos direitos", que envolve crimes do colarinho branco, como fraudes, evasões fiscais e operações comerciais irregulares. Para esses casos, o sistema oferece jurisdições especiais, permitindo transações, acomodações e multas atenuadas.

O que o texto evidencia é que o sistema judicial não tem o objetivo de eliminar completamente os crimes de forma igualitária, mas sim de gerenciar e administrar as ilegalidades de acordo com a classe social do infrator. O poder punitivo atua de maneira seletiva, punindo com rigor as camadas populares e sendo brando com a burguesia.

Analisando as alternativas:

  • A) gestão das ilicitudes pelo sistema judicial. Correta. O texto descreve exatamente como o sistema judicial administra (gere) as diferentes ilegalidades, aplicando pesos e medidas distintos conforme a classe social.
  • B) aplicação das sanções pelo modelo equânime. Incorreta. O modelo descrito é o oposto de equânime (justo, igualitário), pois trata de forma desigual as diferentes classes.
  • C) supressão dos crimes pela penalização severa. Incorreta. A penalização severa é reservada apenas aos crimes contra os bens (classes populares), enquanto os crimes de direitos (burguesia) recebem penas atenuadas. Além disso, a ideia central não é a supressão total, mas a gestão.
  • D) regulamentação dos privilégios pela justiça social. Incorreta. O tratamento diferenciado não promove a justiça social; pelo contrário, reforça as desigualdades e a injustiça.
  • E) repartição de vantagens pela hierarquização cultural. Incorreta. A distinção feita no texto baseia-se em uma oposição de classes (político-econômica), e não em uma hierarquização puramente cultural.

Portanto, a relação de cálculo político-econômico apresentada caracteriza o poder punitivo como um gestor das ilicitudes.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2023 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.