Questão 90 do ENEM 2019Ciências Humanas

ENEM 2019Ciências Humanas1ª aplicação

A fome não é um problema técnico, pois ela não se deve à falta de alimentos, isso porque a fome convive hoje com as condições materiais para resolvê-la.

PORTO-GONÇALVES, C. W. Geografia da riqueza, fome e meio ambiente. In: OLIVEIRA, A. U.; MARQUES, M. I. M. (Org.).O campo no século XXI: território de vida, de luta e de construção da justiça social. São Paulo: Casa Amarela; Paz e Terra, 2004 (adaptado).

O texto demonstra que o problema alimentar apresentado tem uma dimensão política por estar associado ao(à):
A
escala de produtividade regional.
padrão de distribuição de renda.
Resposta correta
C
dificuldade de armazenamento de grãos.
D
crescimento da população mundial.
E
custo de escoamento dos produtos.
Gabarito oficial: alternativa B

Resolução comentada

O texto de Carlos Walter Porto-Gonçalves traz uma reflexão fundamental para compreendermos a dinâmica da fome no mundo contemporâneo. Ele afirma categoricamente que "a fome não é um problema técnico" e que "não se deve à falta de alimentos". O que isso significa na prática? Significa que a humanidade já superou a barreira da produção. Graças aos avanços tecnológicos na agricultura, como os advindos da Revolução Verde (uso de maquinário, sementes selecionadas, fertilizantes), o mundo produz hoje alimento mais do que suficiente para nutrir toda a população global.

Se a comida existe e as prateleiras estão cheias, por que milhões de pessoas ainda passam fome? É aqui que entra a "dimensão política" citada no enunciado.

No sistema capitalista, o alimento é tratado como uma mercadoria. Isso quer dizer que ter acesso à comida não é uma consequência natural de estar vivo, mas sim de ter poder de compra. A barreira que separa o prato de comida da boca do indivíduo faminto não é a escassez física do produto, mas a falta de dinheiro para comprá-lo. Portanto, a fome moderna é um fenômeno de mercado, intrinsecamente ligado à desigualdade social e à concentração de riqueza.

Vamos analisar as alternativas para consolidar esse raciocínio:

A) escala de produtividade regional. Incorreta. O texto afirma que já existem condições materiais para resolver a fome, o que indica que a produtividade agrícola já é alta o suficiente. A fome persiste apesar da alta produtividade.

B) padrão de distribuição de renda. Correta. Se há abundância de alimentos, mas uma parcela da população não consegue acessá-los, o problema central é econômico e social. A má distribuição de renda faz com que a riqueza gerada fique concentrada nas mãos de poucos, deixando muitos sem os recursos financeiros necessários para adquirir o alimento básico.

C) dificuldade de armazenamento de grãos. Incorreta. O armazenamento e o desperdício são desafios reais, mas configuram problemas técnicos e logísticos. O texto pede explicitamente a dimensão política do problema.

D) crescimento da população mundial. Incorreta. Essa alternativa traz a velha armadilha da Teoria Malthusiana, que culpava o crescimento populacional pela fome. O texto refuta essa ideia ao afirmar que temos as condições materiais para alimentar a todos, ou seja, a produção cresceu mais rápido que a população.

E) custo de escoamento dos produtos. Incorreta. Assim como o armazenamento, o transporte (escoamento) é uma questão técnica e logística. Embora o frete encareça o produto, a raiz da fome continua sendo a falta de renda da população para arcar com os custos básicos de sobrevivência.

A persistência da fome no século XXIXXI é, portanto, um reflexo direto de um padrão de distribuição de renda desigual, que transforma a abundância de alimentos em um privilégio para quem pode pagar, em vez de um direito básico garantido a todos. Esse pensamento dialoga fortemente com a obra do geógrafo brasileiro Josué de Castro, que foi pioneiro em denunciar que a fome não é um fenômeno natural, mas sim uma criação social e política.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2019 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.