Questão 125 do ENEM 2014Linguagens

ENEM 2014Linguagens1ª aplicação

A História, mais ou menos

Negócio seguinte. Três reis magrinhos ouviram um plá de que tinha nascido um Guri. Viram o cometa no Oriente e tal e se flagraram que o Guri tinha pintado por lá. Os profetas, que não eram de dar cascata, já tinham dicado o troço: em Belém, da Judeia, vai nascer o Salvador, e tá falado. Os três magrinhos se mandaram. Mas deram o maior fora. Em vez de irem direto para Belém, como mandava o catálogo, resolveram dar uma incerta no velho Herodes, em Jerusalém. Pra quê! Chegaram lá de boca aberta e entregaram toda a trama. Perguntaram: Onde está o rei que acaba de nascer? Vimos sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo. Quer dizer, pegou mal. Muito mal. O velho Herodes, que era um oligão, ficou grilado. Que rei era aquele? Ele é que era o dono da praça. Mas comeu em boca e disse: Joia. Onde é que esse guri vai se apresentar? Em que canal? Quem é o empresário? Tem baixo elétrico? Quero saber tudo. Os magrinhos disseram que iam flagrar o Guri e na volta dicavam tudo para o coroa.

VERISSIMO, L. F. O nariz e outras crônicas. São Paulo: Ática, 1994.

Na crônica de Verissimo, a estratégia para gerar o efeito de humor decorre do(a)
A
linguagem rebuscada utilizada pelo narrador no tratamento do assunto.
B
inserção de perguntas diretas acerca do acontecimento narrado.
C
caracterização dos lugares onde se passa a história.
D
emprego de termos bíblicos de forma descontextualizada.
contraste entre o tema abordado e a linguagem utilizada.
Resposta correta
Gabarito oficial: alternativa E

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar o texto de Luis Fernando Verissimo e entender como ele constrói o humor. O primeiro passo é identificar sobre o que o texto fala e como ele fala.

O tema da crônica é bastante claro: trata-se da história bíblica do nascimento de Jesus e da visita dos Três Reis Magos. Tradicionalmente, por ser um texto sagrado, esse episódio é narrado com uma linguagem formal, solene e respeitosa.

No entanto, ao observarmos a forma como o autor escolheu contar essa história, notamos o uso de um vocabulário extremamente informal, repleto de gírias e expressões coloquiais, como "plá", "Guri", "dar cascata", "dicado o troço", "deram o maior fora", "oligão", "ficou grilado" e "coroa".

O efeito de humor em muitos textos literários, especialmente nas crônicas, surge da quebra de expectativa. Quando o leitor percebe que um tema clássico e sério está sendo tratado como se fosse uma fofoca ou uma conversa de bar entre jovens, ocorre um choque de registros. É exatamente esse contraste entre a solenidade esperada para o tema e a descontração da linguagem utilizada que provoca o riso.

Vamos analisar as alternativas para confirmar nosso raciocínio:

  • A) linguagem rebuscada utilizada pelo narrador no tratamento do assunto. Incorreta. O narrador faz exatamente o oposto: utiliza uma linguagem simples, coloquial e cheia de gírias, passando longe de ser rebuscada.
  • B) inserção de perguntas diretas acerca do acontecimento narrado. Incorreta. Embora Herodes faça perguntas diretas ("Em que canal? Quem é o empresário?"), elas são apenas uma consequência da roupagem moderna dada à história, não sendo a estratégia central do humor.
  • C) caracterização dos lugares onde se passa a história. Incorreta. Os lugares mencionados (Oriente, Belém, Judeia, Jerusalém) são os mesmos da narrativa original e não recebem descrições cômicas.
  • D) emprego de termos bíblicos de forma descontextualizada. Incorreta. Os termos bíblicos (como "Salvador", "Herodes", "Belém") estão no contexto correto da história; o que destoa é o vocabulário ao redor deles.
  • E) contraste entre o tema abordado e a linguagem utilizada. Correta. Como vimos, a graça da crônica reside na mistura inusitada entre um episódio sagrado (tema) e o uso de gírias e expressões populares (linguagem).

Portanto, a estratégia que gera o efeito de humor é o contraste de registros.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2014 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.