Questão 47 do ENEM 2021Ciências Humanas

ENEM 2021Ciências HumanasPPL

A imagem ou modelo, ou seja, toda construção da realidade, é um instrumento de poder e isso desde as origens do homem. Uma imagem, um guia de ação, que tomou as mais diversas formas. Até fizemos da imagem um objeto em si e adquirimos, com o tempo, o hábito de agir mais sobre as imagens, simulacros dos objetos, do que sobre os próprios objetos. Poderíamos imaginar o estudo dos sistemas de representação em ligação com as classes que detinham o poder ao longo da história. <\/p><\/div>

RAFFESTIN, C. Por uma geografia do poder<\/strong>. São Paulo: Ática, 1993 (adaptado).<\/p><\/div><\/div><\/section>

A cartografia moderna, na perspectiva descrita no texto, passou a representar a Terra dando ênfase aos(às)
A
escalas de tamanho grande.
áreas de domínio hegemônico.
Resposta correta
C
aspectos da teoria geocêntrica.
D
projeções cilíndricas equivalentes.
E
diferenciações de legendas coloridas.
Gabarito oficial: alternativa B

Resolução comentada

A questão exige a interpretação de um texto do geógrafo Claude Raffestin, que aborda a relação entre as representações da realidade (como imagens e modelos) e as relações de poder. O autor destaca que a construção de uma imagem é um "instrumento de poder" e sugere que o estudo dos sistemas de representação deve estar ligado às "classes que detinham o poder ao longo da história".

Quando aplicamos essa perspectiva à cartografia moderna, precisamos lembrar do contexto em que ela se desenvolveu. A cartografia moderna ganhou força a partir do século XV, com as Grandes Navegações e a expansão colonial europeia. Nesse período, os mapas deixaram de ser apenas representações artísticas ou religiosas e passaram a ser ferramentas estratégicas fundamentais para o controle de rotas comerciais, apropriação de terras e demonstração de força militar e política.

Sendo assim, os mapas não são neutros. Eles refletem a visão de mundo de quem os produz — ou seja, das nações e classes dominantes. Um exemplo clássico é a Projeção de Mercator (século XVI), que, embora fosse excelente para a navegação, acabava por ampliar as áreas do Hemisfério Norte, colocando a Europa no centro e no topo do mundo, o que reforçava visualmente a hegemonia europeia.

Analisando as alternativas sob a ótica de que o mapa é um instrumento de poder:

  • A) escalas de tamanho grande: A escala é um elemento técnico e matemático do mapa, não sendo o foco da crítica política do texto.
  • B) áreas de domínio hegemônico: Correto. A cartografia moderna enfatizou as áreas dominadas pelas potências da época, utilizando os mapas para legitimar posses territoriais e demonstrar a hegemonia (poder e influência) de determinados Estados sobre outros.
  • C) aspectos da teoria geocêntrica: Incorreto. A cartografia moderna desenvolveu-se paralelamente à Revolução Científica, que consolidou o heliocentrismo, e não o geocentrismo.
  • D) projeções cilíndricas equivalentes: Incorreto. As projeções equivalentes (como a de Peters, do século XX) surgiram justamente como uma crítica à visão eurocêntrica, buscando mostrar as reais proporções dos continentes, dando destaque aos países subdesenvolvidos.
  • E) diferenciações de legendas coloridas: Incorreto. Trata-se apenas de um recurso visual e metodológico da cartografia, sem relação direta com a essência do poder descrita no texto.

Portanto, a cartografia, como sistema de representação, foi historicamente moldada para destacar e legitimar as áreas de domínio hegemônico.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2021 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.