Questão 14 do ENEM 2016Ciências Humanas

ENEM 2016Ciências Humanas3ª aplicação

A importância do argumento de Hobbes está em parte no fato de que ele se ampara em suposições bastante plausíveis sobre as condições normais da vida humana. Para exemplificar: o argumento não supõe que todos sejam de fato movidos por orgulho e vaidade para buscar o domínio sobre os outros; essa seria uma suposição discutível que possibilitaria a conclusão pretendida por Hobbes, mas de modo fácil demais. O que torna o argumento assustador e lhe atribui importância e força dramática é que ele acredita que pessoas normais, até mesmo as mais agradáveis, podem ser inadvertidamente lançadas nesse tipo de situação, que resvalará, então, em um estado de guerra.

RAWLS, J. Conferências sobre a história da filosofia política. São Paulo: WMF, 2012 (adaptado).

O texto apresenta uma concepção de filosofia política conhecida como
A
alienação ideológica.
B
microfísica do poder.
estado de natureza.
Resposta correta
D
contrato social.
E
vontade geral.
Gabarito oficial: alternativa C

Resolução comentada

A questão aborda um dos conceitos mais fundamentais da filosofia política moderna, especificamente o pensamento do filósofo inglês Thomas Hobbes. Para resolvermos, precisamos entender o que o texto descreve e relacionar com a teoria hobbesiana.

O texto do filósofo John Rawls analisa o argumento de Hobbes sobre a condição humana. Ele destaca que, para Hobbes, não é necessário que as pessoas sejam inerentemente más, orgulhosas ou vaidosas para que o conflito ocorra. Pelo contrário, o aspecto mais assustador da teoria de Hobbes é que pessoas comuns e normais, dadas certas condições de ausência de regras e de um poder superior, seriam inevitavelmente levadas a uma situação de desconfiança mútua e competição pela sobrevivência. Essa situação, como o próprio texto conclui, "resvalará, então, em um estado de guerra".

Na filosofia política contratualista (da qual Hobbes faz parte, junto com Locke e Rousseau), a condição hipotética em que os seres humanos vivem antes da criação da sociedade civil, das leis e do Estado é chamada de estado de natureza.

Para Hobbes, o estado de natureza é caracterizado pela igualdade natural entre os indivíduos e pelo direito de todos a todas as coisas. Como os recursos são escassos, essa liberdade absoluta gera uma desconfiança generalizada. Sem um poder soberano para impor a ordem, o estado de natureza degenera rapidamente em um "estado de guerra de todos contra todos" (bellum omnium contra omnes), onde a vida humana é "solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta".

Vamos analisar as alternativas para confirmar nossa conclusão:

  • A) alienação ideológica: É um conceito ligado à teoria marxista, referindo-se a como a classe dominante impõe suas ideias, mascarando a exploração. Não tem relação com Hobbes.
  • B) microfísica do poder: É um conceito do filósofo contemporâneo Michel Foucault, que analisa como o poder se exerce de forma capilar e descentralizada nas relações sociais.
  • C) estado de natureza: É exatamente o conceito descrito no texto. A situação pré-política que inevitavelmente leva ao estado de guerra, segundo Hobbes.
  • D) contrato social: Embora Hobbes seja um contratualista, o contrato social é o pacto ou acordo feito para sair do estado de natureza e fundar o Estado (o Leviatã), garantindo a paz. O texto descreve a situação anterior ao contrato.
  • E) vontade geral: É um conceito central na filosofia política de Jean-Jacques Rousseau, referindo-se ao interesse comum que deve guiar as leis em uma república democrática.

Portanto, a concepção de filosofia política que descreve essa situação de iminente conflito e guerra na ausência de um poder regulador é o estado de natureza.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2016 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.