Questão 40 do ENEM 2017Linguagens

ENEM 2017Linguagens1ª aplicação

A lavadeira começou a viver como uma serviçal que impõe respeito e não mais como escrava. Mas essa regalia súbita foi efêmera. Meus irmãos, nos frequentes deslizes que adulteravam este novo relacionamento, eram dardejados pelo olhar severo de Emilie; eles nunca suportaram de bom grado que uma índia passasse a comer na mesa da sala, usando os mesmos talheres e pratos, e comprimindo com os lábios o mesmo cristal dos copos e a mesma porcelana das xícaras de café. Uma espécie de asco e repulsa tingia-lhes o rosto, já não comiam com a mesma saciedade e recusavam-se a elogiar os pastéis de picadinho de carneiro, os folheados de nata e tâmara, e o arroz com amêndoas, dourado, exalando um cheiro de cebola tostada. Aquela mulher, sentada e muda, com o rosto rastreado de rugas, era capaz de tirar o sabor e o odor dos alimentos e de suprimir a voz e o gesto como se o seu silêncio ou a sua presença que era só silêncio impedisse o outro de viver.

HATOUM, M. Relato de um certo Oriente. São Paulo: Cia. das Letras, 2000.

Ao apresentar uma situação de tensão em família, o narrador destila, nesse fragmento, uma percepção das relações humanas e sociais demarcada pelo
predomínio dos estigmas de classe e de raça sobre a intimidade da convivência.
Resposta correta
B
discurso da manutenção de uma ética doméstica contra a subversão dos valores.
C
desejo de superação do passado de escassez em prol do presente de abastança.
D
sentimento de insubordinação à autoridade representada pela matriarca da família.
E
rancor com a ingratidão e a hipocrisia geradas pelas mudanças nas regras da casa.
Gabarito oficial: alternativa A

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar cuidadosamente o fragmento do romance Relato de um certo Oriente, de Milton Hatoum, e entender a raiz do conflito familiar narrado.

O texto descreve uma mudança na dinâmica da casa: uma lavadeira, de origem indígena, deixa de ser tratada como escrava e passa a receber o tratamento de uma serviçal respeitada, ganhando o direito de sentar-se à mesa com a família. No entanto, o narrador relata a forte reação negativa de seus irmãos a essa nova situação.

Podemos destacar alguns trechos fundamentais para a nossa interpretação:

  • "[...] eles nunca suportaram de bom grado que uma índia passasse a comer na mesa da sala [...]"
  • "Uma espécie de asco e repulsa tingia-lhes o rosto [...]"

Essas passagens revelam que o incômodo dos irmãos não se deve a uma falha de caráter da mulher ou a um conflito pessoal direto, mas sim à sua origem étnica (ser índia) e à sua posição social (ser lavadeira/serviçal). O fato de ela compartilhar a mesma mesa, os mesmos talheres e os mesmos copos gera neles um sentimento de "asco e repulsa".

Isso demonstra que, mesmo dentro do ambiente doméstico e na intimidade do convívio diário, as barreiras do preconceito se mantêm erguidas. Os estigmas de classe (a repulsa por ela ser uma trabalhadora braçal) e de raça (o preconceito contra a sua origem indígena) falam mais alto do que qualquer possibilidade de integração ou empatia na convivência familiar.

Analisando as alternativas:

  • A) predomínio dos estigmas de classe e de raça sobre a intimidade da convivência. (Correta, pois resume perfeitamente o preconceito dos irmãos em relação à origem e à posição social da lavadeira, mesmo dividindo o mesmo teto e a mesma mesa).
  • B) discurso da manutenção de uma ética doméstica contra a subversão dos valores. (Incorreta. O texto não defende uma "ética doméstica", mas expõe o preconceito).
  • C) desejo de superação do passado de escassez em prol do presente de abastança. (Incorreta. A fartura de comida é mencionada, mas o foco do conflito não é a escassez passada, e sim quem está consumindo essa comida).
  • D) sentimento de insubordinação à autoridade representada pela matriarca da família. (Incorreta. Embora Emilie imponha respeito, o cerne da tensão descrita é o preconceito dos irmãos contra a lavadeira, não uma rebelião contra a matriarca).
  • E) rancor com a ingratidão e a hipocrisia geradas pelas mudanças nas regras da casa. (Incorreta. A lavadeira não é descrita como ingrata ou hipócrita; ela é apenas uma presença silenciosa que incomoda os irmãos devido aos preconceitos deles).

Portanto, a tensão narrada é demarcada pelo preconceito social e racial enraizado nos personagens.

Ainda com dúvida nesta questão?

Crie sua conta gratuita e peça ao Darwin, o tutor de IA do Alvo, para explicar do seu jeito — e treine questões como esta na sua trilha adaptativa.

Fonte: prova oficial do ENEM 2017 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.