Questão 132 do ENEM 2019Ciências da Natureza

ENEM 2019Ciências da Natureza1ª aplicação

A maioria das pessoas fica com a visão embaçada ao abrir os olhos debaixo d’água. Mas há uma exceção: o povo moken, que habita a costa da Tailândia. Essa característica se deve principalmente à adaptabilidade do olho e à plasticidade do cérebro, o que significa que você também, com algum treinamento, poderia enxergar relativamente bem debaixo d’água. Estudos mostraram que as pupilas de olhos de indivíduos moken sofrem redução significativa debaixo d’água, o que faz com que os raios luminosos incidam quase paralelamente ao eixo óptico da pupila.

GISLÉN, A. et al. Visual Training Improves Underwater Vision in Children. Vision Research, n. 46, 2006 (adaptado).

A acuidade visual associada à redução das pupilas é fisicamente explicada pela diminuição
A
da intensidade luminosa incidente na retina.
B
da difração dos feixes luminosos que atravessam a pupila.
C
da intensidade dos feixes luminosos em uma direção por polarização.
do desvio dos feixes luminosos refratados no interior do olho.
Resposta correta
E
das reflexões dos feixes luminosos no interior do olho.
Gabarito oficial: alternativa D

Resolução comentada

Para entendermos o "superpoder" do povo moken, precisamos primeiro compreender por que a nossa visão fica embaçada debaixo d'água.

O problema da visão subaquática

No nosso dia a dia, a luz viaja pelo ar (cujo índice de refração é nar1n_{\text{ar}} \approx 1) e atinge a nossa córnea (que, junto com os fluidos do olho, tem um índice de refração de aproximadamente nolho1,33n_{\text{olho}} \approx 1,33). Essa diferença de índices de refração faz com que a luz sofra um grande desvio (refração) ao entrar no olho, o que é essencial para focar a imagem exatamente sobre a retina.

No entanto, quando abrimos os olhos debaixo d'água, a luz viaja de um meio com índice de refração naˊgua1,33n_{\text{água}} \approx 1,33 para o olho. Como os índices de refração da água e da córnea são praticamente iguais, a luz quase não sofre desvio ao entrar no olho. Sem essa refração inicial, a imagem acaba se formando muito atrás da retina, resultando em uma visão completamente borrada (uma espécie de hipermetropia severa temporária).

A solução: o efeito "Pinhole" (Câmara Escura)

O texto nos diz que as pupilas dos indivíduos moken sofrem uma redução significativa, fazendo com que os raios luminosos incidam quase paralelamente ao eixo óptico. Mas como isso ajuda?

Quando a pupila está muito aberta, raios de luz entram por todas as bordas da lente do olho (raios marginais) e precisariam sofrer um grande desvio para se encontrarem em um único ponto na retina. Como vimos, debaixo d'água esse desvio não acontece direito.

Ao contrair a pupila até que ela fique minúscula, o olho bloqueia esses raios periféricos problemáticos e permite a entrada apenas dos raios centrais (raios paraxiais). Esses raios centrais já entram no olho praticamente retos, paralelos ao eixo óptico. A grande vantagem geométrica aqui é que esses raios centrais precisam de pouquíssimo ou nenhum desvio (refração) para atingir a retina no lugar certo.

Esse é o mesmo princípio de uma câmara escura de orifício ou o motivo pelo qual pessoas míopes apertam os olhos para enxergar melhor de longe: ao diminuir a abertura, você aumenta a profundidade de campo e elimina a necessidade de a lente desviar muito a luz para focar a imagem.

Analisando as alternativas

Sabendo disso, podemos avaliar o que ocorre fisicamente:

  • A) Incorreta. A intensidade luminosa realmente diminui quando a pupila fecha, mas ter menos luz deixa a imagem mais escura, não mais nítida.
  • B) Incorreta. Diminuir o tamanho de uma fenda (pupila) na verdade aumenta a difração da luz. Se a difração fosse o fator principal, a imagem ficaria ainda mais borrada.
  • C) Incorreta. A polarização não tem relação com a capacidade de focar a imagem na retina.
  • D) Correta. Ao fechar a pupila, selecionamos apenas os raios que entram paralelos ao eixo óptico. Isso diminui drasticamente a necessidade de desvio dos feixes luminosos refratados no interior do olho, compensando a falta de refração da córnea na água.
  • E) Incorreta. Reflexões internas não são a causa do embaçamento subaquático, mas sim a falta de refração adequada.

Portanto, a acuidade visual é explicada pela diminuição do desvio necessário para formar a imagem.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2019 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.