Questão 25 do ENEM 2020Linguagens

ENEM 2020Linguagens1ª aplicação

A obra de Joseph Kosuth data de 1965 e se constitui por uma fotografia de cadeira, uma cadeira exposta e um quadro com o verbete “Cadeira”. Trata-se de um exemplo de arte conceitual que revela o paradoxo entre verdade e imitação, já que a arte

KOSUTH J. One and Three Chairs. Museu Reina Sofia, Espanha, 1965.
Disponível em: www.museoreinasofia.es. Acesso em: 4 jun. 2018
(adaptado).

A obra de Joseph Kosuth data de 1965 e se constitui por uma fotografia de cadeira, uma cadeira exposta e um quadro com o verbete “Cadeira”. Trata-se de um exemplo de arte conceitual que revela o paradoxo entre verdade e imitação, já que a arte
não é a realidade, mas uma representação dela.
Resposta correta
B
fundamenta-se na repetição, construindo variações.
C
não se define, pois depende da interpretação do fruidor.
D
resiste ao tempo, beneficiada por múltiplas formas de registro.
E
redesenha a verdade, aproximando-se das definições lexicais.
Gabarito oficial: alternativa A

Resolução comentada

A obra "Uma e Três Cadeiras" (One and Three Chairs), criada por Joseph Kosuth em 1965, é um dos marcos mais famosos da Arte Conceitual. Para resolver a questão, precisamos analisar os elementos que o artista colocou à nossa frente e o que eles significam em conjunto.

Na instalação, temos três manifestações da ideia de "cadeira":

  1. Uma cadeira física, real, de madeira (o objeto em si, palpável e utilitário).
  2. Uma fotografia dessa mesma cadeira (uma representação visual em duas dimensões).
  3. Um quadro com o verbete de dicionário da palavra "cadeira" (uma representação verbal e simbólica).

O que Kosuth propõe aqui é uma profunda provocação filosófica. Ele nos convida a questionar: qual dessas três é a "verdadeira" cadeira? A resposta instintiva é apontar para o objeto físico no centro, pois é o único no qual podemos de fato sentar. A fotografia e o texto não são a cadeira real; eles são apenas formas criadas pelo ser humano para representar a cadeira.

Esse é o cerne do "paradoxo entre verdade e imitação" citado no enunciado da questão. A arte (representada aqui pela fotografia) e a linguagem (representada pelo verbete) tentam capturar e comunicar a realidade, mas elas nunca serão a realidade em si. Elas são sempre uma tradução, uma imitação (o que os gregos chamavam de mimesis), um signo que aponta para algo no mundo real.

Podemos traçar um paralelo muito claro com outra obra famosa: "A Traição das Imagens", do pintor surrealista René Magritte. Nessa tela, Magritte pinta um cachimbo de forma extremamente realista e escreve logo abaixo: "Isto não é um cachimbo" (Ceci n'est pas une pipe). E ele está absolutamente certo! Aquilo não é um cachimbo real, é apenas tinta sobre uma tela formando a imagem de um cachimbo. Você não pode enchê-lo de tabaco e fumá-lo.

Analisando as alternativas

Com esse raciocínio em mente, fica claro por que a alternativa A é a correta. A obra de Kosuth demonstra de forma quase didática que a arte não é a realidade, mas sim um sistema de representação dela.

Vamos entender por que as outras estão incorretas:

  • B) fundamenta-se na repetição, construindo variações: O foco da obra não é a repetição estética ou a criação de variações de um mesmo tema (como pintar três cadeiras de cores diferentes), mas sim evidenciar a diferença de natureza (ontológica) entre o objeto, a imagem e o conceito.
  • C) não se define, pois depende da interpretação do fruidor: Esta é uma "pegadinha" comum. Embora a arte contemporânea frequentemente exija a participação ativa do espectador para construir sentido, esta obra específica de Kosuth tem uma mensagem filosófica muito clara e definida sobre a natureza da representação. Ela não está argumentando que a arte é indefinível.
  • D) resiste ao tempo, beneficiada por múltiplas formas de registro: A alternativa foge totalmente do tema. A obra não está discutindo a preservação da arte ao longo da história ou sua durabilidade física.
  • E) redesenha a verdade, aproximando-se das definições lexicais: A obra inverte essa lógica. Ela não diz que a arte deve se aproximar do dicionário; ela mostra que o dicionário (a definição lexical) é apenas mais uma forma de representação, tão distante da "verdade" (o objeto físico) quanto a própria fotografia.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2020 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.