Questão 26 do ENEM 2015Ciências Humanas

ENEM 2015Ciências Humanas2ª aplicação

A pura lealdade na amizade, embora até o presente não tenha existido nenhum amigo leal, é imposta a todo homem, essencialmente, pelo fato de tal dever estar implicado como dever em geral, anteriormente a toda experiência, na ideia de uma razão que determina a vontade segundo princípios a priori.

KANT, I. Fundamentação da metafísica dos costumes. São Paulo: Barcarolla, 2009.

A passagem citada expõe um pensamento caracterizado pela:
A
eficácia prática da razão empírica.
B
transvaloração dos valores judaico-cristãos.
recusa em fundamentar a moral pela experiência.
Resposta correta
D
comparação da ética a uma ciência de rigor matemático.
E
importância dos valores democráticos nas relações de amizade.
Gabarito oficial: alternativa C

Resolução comentada

Análise do Texto de Kant

O trecho apresentado pertence a Immanuel Kant, um dos filósofos mais importantes da modernidade, e aborda a sua concepção de ética e moral. Para compreender a questão, precisamos focar em duas expressões fundamentais usadas por ele no texto: "anteriormente a toda experiência" e "princípios a priori".

A Ética Kantiana

Para Kant, a moralidade não pode depender das nossas vivências, inclinações, sentimentos ou da observação do mundo ao nosso redor (o que chamamos de experiência empírica). Se a moral dependesse da experiência, ela seria variável e incerta, pois cada pessoa vive situações diferentes e as sociedades mudam. Em vez disso, Kant defende que as regras morais devem ser universais e necessárias, valendo para todos os seres racionais em qualquer situação.

Para que isso seja possível, o dever moral deve nascer da própria razão, de forma totalmente independente da experiência. É exatamente isso que significa a expressão filosófica a priori: um princípio que vem antes da experiência e não depende dela para ser válido.

No exemplo dado pelo texto, Kant afirma que o dever de ser leal na amizade existe mesmo que, na prática, nunca tenha existido um amigo perfeitamente leal. Ou seja, o fato de não observarmos a lealdade perfeita no mundo real (na experiência) não anula o dever moral de sermos leais, pois esse dever é imposto pela razão pura, e não pela constatação de como as pessoas realmente agem.

Avaliando as Alternativas

Com base nesse raciocínio, podemos analisar as opções fornecidas:

  • A) eficácia prática da razão empírica: Incorreta. Kant rejeita a razão empírica (baseada na experiência) como fundamento da moral, defendendo a razão pura (a priori).
  • B) transvaloração dos valores judaico-cristãos: Incorreta. Esse é um conceito central na filosofia de Friedrich Nietzsche, que propõe uma crítica radical à moral tradicional, o que não tem relação com o texto de Kant.
  • C) recusa em fundamentar a moral pela experiência: Correta. Como vimos, Kant afirma que o dever moral existe "anteriormente a toda experiência", recusando-se a basear a ética na observação empírica de como os seres humanos se comportam.
  • D) comparação da ética a uma ciência de rigor matemático: Incorreta. Embora Kant busque uma fundamentação rigorosa, universal e racional para a moral, o trecho não faz nenhuma comparação com a matemática.
  • E) importância dos valores democráticos nas relações de amizade: Incorreta. O texto não aborda política ou valores democráticos, mas sim a fundamentação racional e universal do dever moral.

Fica claro, portanto, que o pensamento exposto se caracteriza pela recusa do empirismo na fundamentação da moral.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2015 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.