Questão 72 do ENEM 2024Ciências Humanas

ENEM 2024Ciências HumanasPPL

A realização de inúmeras tarefas por máquinas é apresentada como garantia de um futuro no qual ninguém mais precisaria trabalhar (transformar a natureza), pois tudo seria produzido por tecnologias (muito ou pouco “inteligentes”), liberando os seres sociais do trabalho, a começar pelas tarefas rudes ou repetitivas. A perda de trabalho que a introdução capitalista de máquinas promove para intensificar a extração de valor é metamorfoseada em liberação do trabalho. A necessidade de trabalhar, porém, subsiste entre os seres sociais da sociedade capitalista, pois, sem vender força de trabalho, tais expropriados não subsistem no mercado. Entre ameaça e promessa, desaparecem as possibilidades concretas trazidas por processos de trabalho cada dia mais socializados, como redução das jornadas sem redução da remuneração, por exemplo.

FONTES, V. Capitalismo em tempo de uberização: do emprego ao trabalho. Marx e Marxismo, n. 8, 2017 (adaptado).

De acordo com o texto, o efeito da relação entre trabalho e tecnologia sobre a realidade social é o(a)
A
ampliação laboral.
B
flexibilização judicial.
C
padronização salarial.
desemprego estrutural.
Resposta correta
E
deslocamento sazonal.
Gabarito oficial: alternativa D

Resolução comentada

A questão exige a interpretação de um texto sobre as transformações no mundo do trabalho geradas pelo avanço tecnológico no sistema capitalista. Vamos analisar o raciocínio passo a passo.

O texto da historiadora Virgínia Fontes aborda uma contradição fundamental do capitalismo contemporâneo: a promessa de que a tecnologia (máquinas, inteligência artificial) libertaria o ser humano do trabalho pesado e repetitivo. No entanto, a autora aponta que, na realidade, a introdução dessas tecnologias promove a "perda de trabalho". Como os trabalhadores (os "expropriados") continuam precisando vender sua força de trabalho para sobreviver no mercado, essa substituição do trabalho humano por máquinas não resulta em mais tempo livre com qualidade de vida (como a redução da jornada sem redução salarial), mas sim na exclusão desses trabalhadores do mercado.

Esse fenômeno de perda permanente de postos de trabalho devido à modernização, automação e introdução de novas tecnologias nos processos produtivos é o que chamamos nas Ciências Humanas de desemprego estrutural. Diferente do desemprego conjuntural (que ocorre por crises econômicas passageiras), o desemprego estrutural altera a própria estrutura do mercado de trabalho, fazendo com que certas funções deixem de existir.

Analisando as alternativas:

  • A) ampliação laboral: Incorreta. O texto fala expressamente em "perda de trabalho", e não em aumento de vagas.
  • B) flexibilização judicial: Incorreta. Embora a uberização (citada na fonte do texto) envolva flexibilização de direitos, o trecho foca na substituição do homem pela máquina, e não em questões jurídicas.
  • C) padronização salarial: Incorreta. O texto não aborda a equalização de salários.
  • D) desemprego estrutural: Correta. É o conceito exato que define a "perda de trabalho que a introdução capitalista de máquinas promove", conforme descrito no texto.
  • E) deslocamento sazonal: Incorreta. Refere-se a migrações temporárias ligadas a épocas do ano (como safras agrícolas), o que não tem relação com o texto.

Portanto, o efeito da relação entre trabalho e tecnologia descrito é o desemprego estrutural.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2024 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.