Questão 56 do ENEM 2019Ciências Humanas

ENEM 2019Ciências Humanas1ª aplicação

A reestruturação global da indústria, condicionada pelas estratégias de gestão global da cadeia de valor dos grandes grupos transnacionais, promoveu um forte deslocamento do processo produtivo, até mesmo de plantas industriais inteiras, e redirecionou os fluxos de produção e de investimento. Entretanto, o aumento da participação dos países em desenvolvimento no produto global deu-se de forma bastante assimétrica quando se compara o dinamismo dos países do leste asiático com o dos demais países, sobretudo os latino-americanos, no período 1980-2000.

SARTI, F.; HIRATUKA, C. Indústria mundial: mudanças e tendências recentes. Campinas: Unicamp, n. 186, dez. 2010.

A dinâmica de transformação da geografia das indústrias descrita expõe a complementaridade entre dispersão espacial e
A
autonomia tecnológica.
B
crises de abastecimento.
C
descentralização política.
concentração econômica.
Resposta correta
E
compartilhamento de lucros.
Gabarito oficial: alternativa D

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos compreender a lógica de funcionamento das grandes empresas transnacionais no contexto da globalização e da Nova Divisão Internacional do Trabalho (DIT).

O texto de apoio descreve um fenômeno muito marcante a partir do final do século XX (especialmente no período de 19801980 a 20002000): o forte deslocamento do processo produtivo. Isso significa que as grandes indústrias, cujas matrizes ficam em países desenvolvidos (como Estados Unidos, Japão e nações europeias), passaram a instalar suas fábricas em países em desenvolvimento (como China, Vietnã, México e Brasil). Esse movimento é o que chamamos de dispersão espacial da indústria.

Mas por que essas empresas fazem isso? A resposta está na busca por vantagens competitivas, como mão de obra mais barata, incentivos fiscais, leis ambientais menos rígidas e proximidade de matérias-primas. Ao fragmentar a produção e espalhar as fábricas pelo mundo, essas corporações conseguem reduzir drasticamente seus custos de produção.

No entanto, o texto também destaca que a gestão global continua nas mãos desses "grandes grupos transnacionais" e que o desenvolvimento gerado por isso é "bastante assimétrico". É aqui que entra o grande paradoxo da globalização: enquanto a parte braçal e produtiva (a fábrica) se espalha pelo mundo, a parte intelectual e financeira (o design, as patentes, o marketing e, principalmente, os lucros) retorna e se acumula nas matrizes.

Portanto, a dispersão espacial da produção não significa que a riqueza está sendo distribuída de forma igualitária. Pelo contrário, ela é uma estratégia que serve justamente para aumentar a concentração econômica nas mãos de poucas e gigantescas corporações globais.

Vamos analisar por que as outras alternativas estão incorretas:

  • A) autonomia tecnológica: Incorreta. Os países periféricos que recebem essas fábricas geralmente atuam apenas na montagem dos produtos. A tecnologia de ponta e o conhecimento (know-how) continuam restritos aos países centrais, gerando dependência, e não autonomia.
  • B) crises de abastecimento: Incorreta. A reestruturação global e os sistemas modernos de logística (como o Just-in-Time) foram criados justamente para otimizar o abastecimento e a produção, não sendo esse o foco do texto.
  • C) descentralização política: Incorreta. O texto trata de uma dinâmica econômica e corporativa, não de uma mudança na estrutura de poder político dos Estados.
  • E) compartilhamento de lucros: Incorreta. O próprio enunciado afirma que o processo se deu de forma "bastante assimétrica", o que evidencia a desigualdade. O objetivo do sistema capitalista transnacional é maximizar o lucro para os acionistas da matriz, e não dividi-lo com os países que abrigam as fábricas.

Dessa forma, a dinâmica descrita expõe a complementaridade perfeita entre espalhar as fábricas (dispersão espacial) e acumular o capital (concentração econômica).

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Fonte: prova oficial do ENEM 2019 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.