Questão 25 do ENEM 2025Linguagens

ENEM 2025LinguagensReaplicação

A roda dos não ausentes

O nada e o não,
ausência alguma,
borda em mim o empecilho.
Há tempos treino
o equilíbrio sobre
esse alquebrado corpo,
e, se inteira fui,
cada pedaço que guardo de mim
tem na memória o anelar
de outros pedaços.
E da história que me resta
estilhaçados sons esculpem
partes de uma música inteira.
Traço então a nossa roda gira-gira
em que os de ontem, os de hoje,
e os de amanhã se reconhecem
nos pedaços uns dos outros.
Inteiros.

EVARISTO, C. Poemas de recordação e outros movimentos. Rio de Janeiro: Malê, 2017.

Nesse poema, a expressividade construída pelo eu lírico remete ao(à)
A
resignação ante uma realidade fragmentada.
B
esquecimento de dores passadas.
evocação de uma memória coletiva.
Resposta correta
D
ressignificação de um projeto político.
E
fortalecimento de sentimentos particulares.
Gabarito oficial: alternativa C

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar a construção de sentido do poema de Conceição Evaristo, observando como o eu lírico se posiciona em relação à sua própria história e à história dos outros.

O poema inicia descrevendo um eu lírico marcado pela fragmentação e pelo desgaste do tempo: "Há tempos treino / o equilíbrio sobre / esse alquebrado corpo". A voz poética reconhece que não é mais inteira, mas sim feita de "pedaços" e "estilhaçados sons". No entanto, esses fragmentos não estão perdidos; eles carregam lembranças ("tem na memória o anelar / de outros pedaços").

A grande virada do poema ocorre na última estrofe, quando o eu lírico sai da esfera individual e entra na esfera coletiva: "Traço então a nossa roda gira-gira / em que os de ontem, os de hoje, / e os de amanhã se reconhecem / nos pedaços uns dos outros. / Inteiros."

Nesse momento, percebemos que a cura para a fragmentação individual está no encontro com o outro e com a ancestralidade. A união das gerações passadas ("os de ontem"), presentes ("os de hoje") e futuras ("os de amanhã") forma uma memória coletiva. É através do reconhecimento mútuo das dores e histórias compartilhadas que os indivíduos, antes estilhaçados, tornam-se novamente "Inteiros".

Analisando as alternativas:

  • A) resignação ante uma realidade fragmentada: Incorreta. O eu lírico não se conforma passivamente com a fragmentação; ele age ("Traço então a nossa roda") para buscar a inteireza no coletivo.
  • B) esquecimento de dores passadas: Incorreta. O poema valoriza a lembrança e a história ("tem na memória", "da história que me resta"), não o esquecimento.
  • C) evocação de uma memória coletiva: Correta. A "roda gira-gira" simboliza a união das diferentes gerações que, ao compartilharem suas memórias e vivências, reconstroem sua identidade de forma coletiva.
  • D) ressignificação de um projeto político: Incorreta. Embora a literatura de Conceição Evaristo tenha um forte viés social, o poema em questão foca na reconstrução identitária através da memória, e não na formulação de um projeto político estrito.
  • E) fortalecimento de sentimentos particulares: Incorreta. O movimento do poema é justamente o oposto: ele parte da dor particular ("mim") para encontrar força no coletivo ("nossa roda", "uns dos outros").

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Fonte: prova oficial do ENEM 2025 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.