Questão 131 do ENEM 2012Linguagens

ENEM 2012Linguagens2ª aplicação

A rua

Bem sei que, muitas vezes,
O único remédio
É adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem,
A dívida, o divertimento,
O pedido de emprego, ou a própria alegria.
A esperança é também uma forma
De contínuo adiamento.
Sei que é preciso prestigiar a esperança,
Numa sala de espera.
Mas sei também que espera significa luta e não, apenas,
Esperança sentada.
Não abdicação diante da vida.

A esperança
Nunca é a forma burguesa, sentada e tranquila da espera.
Nunca é figura de mulher
Do quadro antigo.
Sentada, dando milho aos pombos.

RICARDO, C. Disponível em: www.revista.agulha.nom.br. Acesso em: 2 jan. 2012.

O poema de Cassiano Ricardo insere-se no Modernismo brasileiro. O autor metaforiza a crença do sujeito lírico numa relação entre o homem e seu tempo marcada por
A
um olhar de resignação perante as dificuldades materiais e psicológicas da vida.
B
uma ideia de que a esperança do povo brasileiro está vinculada ao sofrimento e às privações.
C
uma posição em que louva a esperança passiva para que ocorram mudanças sociais.
D
um estado de inércia e de melancolia motivado pelo tempo passado “numa sala de espera”.
uma atitude de perseverança e coragem no contexto de estagnação histórica e social.
Resposta correta
Gabarito oficial: alternativa E

Resolução comentada

Para resolvermos essa questão, precisamos analisar cuidadosamente a construção argumentativa do poema de Cassiano Ricardo e identificar qual é a verdadeira visão do eu lírico sobre a "esperança". O comando da questão nos pede para encontrar a alternativa que traduza a crença do sujeito lírico na relação entre o homem e o seu tempo.

A Estrutura do Poema e a Metáfora da Esperança

O poema pode ser dividido em dois momentos principais, marcados por uma forte oposição de ideias:

1. O Reconhecimento da Estagnação: No início, o eu lírico constata uma realidade difícil, na qual é preciso "adiar tudo" — a sede, a fome, a viagem, a alegria. Nesse primeiro momento, a esperança é apresentada como um "contínuo adiamento", uma necessidade de saber esperar em uma "sala de espera". Se parássemos a leitura por aqui, poderíamos ser levados a crer que o poema defende a resignação.

2. A Virada Argumentativa e a Esperança Ativa: A partir do verso "Mas sei também que espera significa luta", o poema sofre uma reviravolta. A conjunção adversativa "Mas" introduz a verdadeira tese do autor: a espera não deve ser passiva. Ele nega veementemente a "Esperança sentada" e a "abdicação diante da vida".

Na última estrofe, o eu lírico critica a esperança inerte, chamando-a de "forma burguesa, sentada e tranquila" e comparando-a a uma mulher de um quadro antigo "dando milho aos pombos". Fica claro, portanto, que o autor defende uma esperança que é sinônimo de luta, ação e resistência.

Análise das Alternativas

Com essa interpretação em mente, vamos avaliar as opções:

  • A) um olhar de resignação perante as dificuldades materiais e psicológicas da vida. Esta é a principal armadilha da questão. Ela descreve exatamente a atitude que o eu lírico rejeita ao dizer "Não abdicação diante da vida".

  • B) uma ideia de que a esperança do povo brasileiro está vinculada ao sofrimento e às privações. O poema não afirma que a esperança depende do sofrimento, mas sim que a atitude de luta é a resposta necessária diante de um cenário de privações.

  • C) uma posição em que louva a esperança passiva para que ocorram mudanças sociais. Incorreta. O texto faz o exato oposto: critica duramente a esperança passiva, associando-a a uma atitude "burguesa" e inerte.

  • D) um estado de inércia e de melancolia motivado pelo tempo passado “numa sala de espera”. Incorreta. A "sala de espera" é apenas o cenário de estagnação, mas a atitude defendida pelo eu lírico para se estar nela é a de luta, e não a de inércia.

  • E) uma atitude de perseverança e coragem no contexto de estagnação histórica e social. Correta. Essa alternativa resume perfeitamente a tese do poema. A "esperança" defendida pelo eu lírico é a "luta", o que exige perseverança e coragem. O cenário de "adiamento" e a "sala de espera" representam o contexto de estagnação, no qual a ação e a não abdicação se fazem ainda mais necessárias.

Essa visão de uma esperança ativa, que não apenas aguarda, mas age e transforma, é uma marca importante da poesia modernista mais engajada, que reflete criticamente sobre o papel do homem no mundo.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2012 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.