Alimentamos tantas expectativas de libertação para falarmos o que bem quisermos e para criarmos tecnologias e mundos novos que nos descuidamos de prestar atenção na ascensão dos monopólios das empresas de tecnologia, na construção de bolhas de informação que confirmam pontos de vista e na cada vez mais real possibilidade de a internet virar uma TV a cabo, com o já proclamado fim da neutralidade da rede. Tomamos um porre de otimismo. E agora estamos na fase de ressaca, reféns dos monopólios da internet, da comercialização de qualquer dado deixado na rede, das fake news chegando de todos os lados. Distopia pura.
O cerceamento da internet por empresas privadas é um dos elementos principais na construção desse espírito. O que resta da internet hoje senão as plataformas, os softwares e os dispositivos dessas empresas? Para a maioria da população brasileira e mundial, pouco. De acordo com um dos criadores da ideia de realidade virtual, “a cultura digital nascente acreditava que tudo na internet deveria ser público, gratuito. Ao mesmo tempo, amávamos nossos empreendedores de tecnologia”. Como celebrar empreendedorismo se tudo é gratuito? Com um modelo baseado em publicidade. Os sites de busca e as redes sociais nasceram gratuitos. Mas os algoritmos se tornaram mais eficientes. E o que começou como propaganda não pode mais ser chamado de propaganda. Hoje é modificação de comportamento.Questão 28 do ENEM 2025 — Linguagens
Resolução comentada
O texto constrói um contraste entre a expectativa de liberdade que a internet despertou e a realidade que se consolidou. Vale acompanhar esse movimento argumentativo para entender o que, de fato, o autor coloca no centro da reflexão.
Logo no início, ele diz que alimentamos "expectativas de libertação" para falar e criar livremente, mas nos descuidamos de notar a "ascensão dos monopólios das empresas de tecnologia". Em seguida, afirma que hoje estamos "reféns dos monopólios da internet" e que o "cerceamento da internet por empresas privadas é um dos elementos principais na construção desse espírito". Ao final, mostra que o modelo dessas empresas, baseado em algoritmos e publicidade, evoluiu para algo que ele chama de "modificação de comportamento".
Percebe-se que todos os elementos citados (algoritmos, TV a cabo, fake news, gratuidade) funcionam como peças que ilustram um mesmo ponto: quem controla a internet hoje são as grandes empresas. Vejamos as alternativas:
A) evolução eficiente dos algoritmos. A eficiência dos algoritmos é citada, mas como ferramenta a serviço das empresas — um meio do controle, não o foco da reflexão sobre liberdade.
B) declínio do interesse pela televisão. O texto não fala em declínio da TV. A "TV a cabo" aparece como metáfora do fim da neutralidade da rede (uma internet fatiada e controlada).
C) impossibilidade de lidar com fake news. As fake news são apresentadas como consequência desse cenário ("chegando de todos os lados"), não como o eixo central da crítica, e o texto não afirma ser impossível enfrentá-las.
D) importância de garantir a gratuidade da rede. O texto problematiza a gratuidade: a crença de que tudo deveria ser gratuito abriu caminho para o modelo baseado em publicidade e coleta de dados que resultou no controle atual.
E) controle exercido pelas grandes corporações. Toda a argumentação converge para como os monopólios de tecnologia passaram a dominar a rede, cercear a liberdade, comercializar dados e até modificar comportamentos.
Portanto, a reflexão proposta destaca o controle exercido pelas grandes corporações sobre a internet e seus usuários.
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Fonte: prova oficial do ENEM 2025 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.