Questão 44 do ENEM 2016Linguagens

ENEM 2016Linguagens2ª aplicação

Anoitecer

 

A Dolores

É a hora em que o sino toca,
mas aqui não há sinos;
há somente buzinas,
sirenes roucas,
apitos aflitos, pungentes, trágicos,
uivando escuro segredo;
desta hora tenho medo.

[…]

É a hora do descanso,
mas o descanso vem tarde,
o corpo não pede sono,
depois de tanto rodar;
pede paz – morte – mergulho
no poço mais ermo e quedo;
desta hora tenho medo.

Hora de delicadeza,
agasalho, sombra, silêncio.
Haverá disso no mundo?
É antes a hora dos corvos,
bicando em mim,
meu passado, meu futuro, meu degredo;
desta hora, sim, tenho medo.

ANDRADE, C. D. A rosa do povo. Rio de Janeiro: Record, 2005 (fragmento).

Com base no contexto da Segunda Guerra Mundial, o livro A rosa do povo revela desdobramentos da visão poética. No fragmento, a expressividade lírica demonstra um(a)
A
defesa da esperança como forma de superação das atrocidades da guerra.
B
desejo de resistência às formas de opressão e medo produzidas pela guerra.
olhar pessimista das instituições humanas e sociais submetidas ao conflito armado.
Resposta correta
D
exortação à solidariedade para a reconstrução dos espaços urbanos bombardeados.
E
espírito de contestação capaz de subverter a condição de vítima dos povos afetados.
Gabarito oficial: alternativa C

Resolução comentada

Para compreender esta questão, precisamos mergulhar no universo do livro A rosa do povo, publicado por Carlos Drummond de Andrade em 19451945. Esta obra é fortemente marcada pelo contexto da Segunda Guerra Mundial e pela ditadura do Estado Novo no Brasil, refletindo as angústias e os horrores vivenciados na época.

Ao lermos o fragmento do poema 'Anoitecer', percebemos que o eu lírico descreve a chegada da noite não como um momento de descanso e paz, mas como um instante de terror. Ele contrasta a tradição e a tranquilidade (representadas pelo 'sino') com o desespero do cenário de guerra ('buzinas, sirenes roucas, apitos aflitos'). As sirenes remetem diretamente aos alarmes de ataques aéreos, criando uma atmosfera de tensão e medo constante.

O cansaço físico e emocional é tão extremo que o corpo 'pede paz – morte', revelando uma profunda desesperança. O eu lírico chega a duvidar que ainda existam coisas boas no mundo, perguntando: 'Haverá disso no mundo?'. A imagem final dos 'corvos' bicando seu passado e seu futuro reforça a sensação de destruição e morte, mostrando um indivíduo consumido pelo cenário ao seu redor.

Com base nessa análise, podemos avaliar as alternativas:

A alternativa A é incorreta porque o poema não defende a esperança; pelo contrário, é dominado pelo medo e pela exaustão.

A alternativa B também é incorreta, pois não há um desejo ativo de resistência, mas sim um sentimento de impotência e desejo de 'morte' para escapar do sofrimento.

A alternativa C é a correta. O fragmento expressa exatamente um olhar pessimista sobre a realidade, mostrando como as instituições e a vida humana foram degradadas e submetidas ao terror do conflito armado.

A alternativa D não se sustenta, já que o texto não faz nenhuma exortação (chamado) à solidariedade ou à reconstrução.

A alternativa E é incorreta porque o eu lírico não consegue subverter sua condição de vítima; ele se sente atacado e sem perspectivas ('corvos, bicando em mim').

Dessa forma, a alternativa correta é a C, que capta perfeitamente a essência sombria e desoladora do poema diante da guerra.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2016 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.