Questão 83 do ENEM 2020Ciências Humanas

ENEM 2020Ciências Humanas1ª aplicação

Ao abrigo do teto, sua jornada de fé começava na sala de jantar. Na pequena célula cristã, dividia-se a refeição e durante elas os crentes conversavam, rezavam e liam cartas de correligionários residentes em locais diferentes do Império Romano (século II da Era Cristã). Esse ambiente garantia peculiar apoio emocional às experiências intensamente individuais que abrigava.

SENNET, R. Carne e pedra. Rio de Janeiro. Record, 2008.

Um motivo que explica a ambientação da prática descrita no texto encontra-se no(a)
A
regra judaica, que pregava a superioridade espiritual dos cultos das sinagogas.
B
moralismo da legislação, que dificultava as reuniões abertas da juventude livre.
C
adesão do patriarcado, que subvertia o conceito original dos valores estrangeiros.
decisão política, que censurava as manifestações públicas da doutrina dissidente.
Resposta correta
E
violência senhorial, que impunha a desestruturação forçada das famílias escravas.
Gabarito oficial: alternativa D

Resolução comentada

Análise do Texto e Contexto Histórico

O texto da questão nos transporta para o Império Romano no século IIII da Era Cristã, descrevendo reuniões de cristãos que ocorriam "ao abrigo do teto", ou seja, no interior de residências, em "pequenas células". O comando da questão exige que compreendamos o motivo pelo qual essas práticas religiosas precisavam acontecer de forma oculta e doméstica, em vez de ocorrerem em grandes templos públicos.

Para entender isso, precisamos resgatar o contexto político e religioso do Império Romano. A sociedade romana era politeísta e a religião estava profundamente ligada à política. O culto aos deuses tradicionais e, principalmente, o culto ao imperador, eram vistos como deveres cívicos que garantiam a união, a lealdade e a proteção do Império.

O Cristianismo, por ser uma religião monoteísta e exclusivista, proibia seus fiéis de adorarem outros deuses ou de prestarem culto divino ao imperador. Aos olhos do Estado romano, essa recusa não era apenas uma diferença teológica, mas um ato de traição e subversão política. O Cristianismo passou a ser visto como uma doutrina dissidente e perigosa para a ordem pública.

A Clandestinidade como Estratégia de Sobrevivência

Devido a essa visão de insubordinação, o Império Romano adotou uma postura de perseguição sistemática aos cristãos. Houve uma clara decisão política de censurar e reprimir qualquer manifestação pública dessa nova fé.

É exatamente por isso que os cristãos se reuniam nas salas de jantar de suas casas. A ambientação doméstica descrita no texto não era uma simples preferência arquitetônica ou teológica, mas uma necessidade absoluta de sobrevivência diante da censura e da repressão estatal. Eles precisavam do "abrigo do teto" para escapar da violência do Estado e poderem praticar sua fé e obter apoio mútuo.

Análise das Alternativas

Com esse cenário em mente, podemos avaliar as alternativas:

  • A alternativa A está incorreta porque o foco do texto não é a relação com o judaísmo ou as sinagogas, mas sim a dinâmica de perseguição dentro do Império Romano.
  • A alternativa B erra ao falar de "moralismo" contra a "juventude livre". A repressão era de caráter político-religioso e afetava cristãos de todas as idades e classes.
  • A alternativa C é historicamente incorreta para o período (século IIII), pois a adesão maciça do patriciado (a elite romana) ao cristianismo só ocorreria muito tempo depois. Nos primeiros séculos, a religião atraía majoritariamente as camadas populares e os escravizados.
  • A alternativa D é a correta. Ela sintetiza perfeitamente o contexto: as reuniões eram secretas devido a uma decisão política do Império, que censurava e perseguia as manifestações públicas da doutrina cristã, considerada dissidente.
  • A alternativa E está incorreta porque a perseguição descrita não se limitava à violência de senhores contra escravos, mas era uma política de Estado contra todos os adeptos da religião, fossem eles cidadãos livres ou escravizados.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2020 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.