Questão 108 do ENEM 2016Linguagens

ENEM 2016Linguagens3ª aplicação

Apuram o passo, por entre campinas ricas, onde pastam ou ruminam outros mil e mais bois. Mas os vaqueiros não esmorecem nos eias e cantigas, porque a boiada ainda tem passagens inquietantes: alarga-se e recomprime-se, sem motivo, e mesmo dentro da multidão movediça há giros estranhos, que não os deslocamentos normais do gado em marcha — quando sempre alguns disputam a colocação na vanguarda, outros procuram o centro, e muitos se deixam levar, empurrados, sobrenadando quase, com os mais fracos rolando para os lados e os mais pesados tardando para trás, no coice da procissão.

— Eh, boi lá!... Eh-ê-ê-eh, boi!... Tou! Tou! Tou...

As ancas balançam, e as vagas de dorsos, das vacas e touros, batendo com as caudas, mugindo no meio, na massa embolada, com atritos de couros, estralos e guampas, estrondos e baques, e o berro queixoso do gado junqueira, de chifres imensos, com muita tristeza, saudade dos campos, querência dos pastos de lá do sertão...

“Um boi preto, um boi pintado,
cada um tem sua cor.
Cada coração um jeito
de mostrar seu amor”.

Boi bem bravo, bate baixo, bota baba, boi berrando... Dança doido, dá de duro, dá de dentro, dá direito...

Vai, vem, volta, vem na vara, vai não volta, vai varando...

ROSA, J. G. O burrinho pedrês. Sagarana. Rio de Janeiro: José Olympio, 1968.

Próximo do homem e do sertão mineiros, Guimarães Rosa criou um estilo que ressignifica esses elementos.

O fragmento expressa a peculiaridade desse estilo narrativo, pois
A
demonstra a preocupação do narrador com a verossimilhança.
B
revela aspectos de confluência entre as vozes e os sons da natureza.
C
recorre à personificação dos animais como principal recurso estilístico.
D
produz um efeito de legitimidade atrelada à reprodução da linguagem regional.
expressa o fluir do rebanho e dos peões por meio de recursos sonoros e lexicais.
Resposta correta
Gabarito oficial: alternativa E

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar o estilo literário de João Guimarães Rosa, um dos maiores nomes da Terceira Geração Modernista no Brasil. Sua obra é marcada por uma profunda recriação da linguagem, misturando o falar regional do sertão mineiro com neologismos, arcaísmos e uma forte musicalidade.

Ao lermos o fragmento de O burrinho pedrês, percebemos que o narrador descreve a marcha de uma boiada. O ponto alto do texto, que evidencia a peculiaridade do estilo rosiano, encontra-se no último parágrafo:

“Boi bem bravo, bate baixo, bota baba, boi berrando... Dança doido, dá de duro, dá de dentro, dá direito... Vai, vem, volta, vem na vara, vai não volta, vai varando...”

Nesse trecho, o autor utiliza intensamente a aliteração, que é a repetição de fonemas consonantais (no caso, as consoantes /b/, /d/ e /v/). Essa repetição sonora não é acidental; ela tem uma função expressiva clara: recriar, por meio do som das palavras, o ritmo, o peso e o movimento contínuo (o fluir) da boiada em marcha, bem como a ação dos peões que a conduzem.

Além dos recursos sonoros, há um trabalho lexical (escolha de vocabulário) muito rico, com palavras que remetem ao universo sertanejo e ao movimento físico (“vagas de dorsos”, “massa embolada”, “atritos de couros”, “estralos e guampas”). A combinação desses sons e palavras faz com que o leitor quase "ouça" e "sinta" o deslocamento do gado.

Analisando as alternativas:

  • A alternativa A está incorreta porque o estilo de Rosa não busca uma mera verossimilhança realista, mas sim uma recriação poética e estilizada da realidade.
  • A alternativa B é insuficiente, pois o foco não é apenas a confluência de vozes e sons da natureza, mas a construção rítmica do movimento da boiada.
  • A alternativa C está incorreta porque os animais não são personificados (não ganham características humanas); eles agem e se movem como bois.
  • A alternativa D está incorreta porque Guimarães Rosa não faz uma simples "reprodução" ou cópia da linguagem regional, mas sim uma invenção literária a partir dela.
  • A alternativa E é a correta, pois descreve exatamente o que observamos: o uso magistral de recursos sonoros (como a aliteração) e lexicais para expressar o movimento (o fluir) do rebanho e dos vaqueiros.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2016 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.