Questão 91 do ENEM 2015Linguagens

ENEM 2015Linguagens1ª aplicação

Caña

El negro
junto al cañaveral.
El yanqui sobre el cañaveral.
La tierra
bajo el cañaveral.
¡Sangre
que se nos va!

GUILLÉN, N. Sóngoro cosongo. Disponível em: www.cervantesvirtual.com. Acesso em: 28 fev. 2012 (fragmento).

Nesse poema de Nicolás Guillén, no qual o poeta reflete sobre o plantio da cana-de-açúcar na América Latina, as preposições junto, sobre e bajo são usadas para indicar metaforicamente:
A
desordens na organização da lavoura de cana-de-açúcar.
B
relações diplomáticas entre os países produtores de cana-de-açúcar.
C
localidades da América Latina nas quais a cana-de-açúcar é cultivada.
relações sociais dos indivíduos que vivem do plantio da cana-de-açúcar.
Resposta correta
E
funções particulares de cada profissional na lavoura da cana-de-açúcar.
Gabarito oficial: alternativa D

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar como o poeta Nicolás Guillén utiliza o espaço físico para construir uma crítica social profunda. O poema descreve três elementos em relação ao canavial (cañaveral), utilizando preposições de lugar diferentes para cada um deles.

Vamos traduzir e interpretar cada verso:

  1. "El negro junto al cañaveral." A preposição junto (ao lado de, próximo a) coloca o negro na posição de trabalhador braçal. Ele está em contato direto com a lavoura, lado a lado com a cana, evidenciando sua condição de mão de obra explorada, sem poder ou posse sobre a terra.

  2. "El yanqui sobre el cañaveral." A preposição sobre (em cima de, acima de) coloca o yanqui (termo usado para se referir aos estadunidenses ou ao capital estrangeiro) em uma posição de superioridade. Isso representa o domínio, o controle econômico e a hierarquia de poder sobre a produção e sobre os trabalhadores.

  3. "La tierra bajo el cañaveral." A preposição bajo (sob, debaixo de) mostra a terra como a base subjugada desse sistema. O poema culmina no verso "¡Sangre que se nos va!", que funciona como uma metáfora para a exploração extrema, onde a riqueza (o sangue) da América Latina é drenada por esse sistema.

Perceba que as preposições não estão ali para dar coordenadas geográficas ou ensinar como se planta cana. Elas são usadas de forma metafórica para desenhar uma pirâmide social: quem domina (sobre), quem trabalha (junto) e quem é explorado até a última gota (bajo).

Analisando as alternativas:

  • A) desordens na organização da lavoura de cana-de-açúcar. Incorreta. O poema não descreve uma bagunça ou desordem, mas sim uma ordem muito bem estabelecida e cruel de exploração.
  • B) relações diplomáticas entre os países produtores de cana-de-açúcar. Incorreta. O foco não é a diplomacia ou a política externa formal, mas a exploração econômica e humana.
  • C) localidades da América Latina nas quais a cana-de-açúcar é cultivada. Incorreta. Como vimos, as preposições indicam hierarquia social, não posições no mapa.
  • D) relações sociais dos indivíduos que vivem do plantio da cana-de-açúcar. Correta. O uso de junto, sobre e bajo ilustra perfeitamente a dinâmica de poder, dominação e subordinação entre os diferentes atores sociais envolvidos na economia canavieira.
  • E) funções particulares de cada profissional na lavoura da cana-de-açúcar. Incorreta. O poema não está descrevendo cargos ou profissões (como tratorista, engenheiro agrônomo, etc.), mas sim classes sociais e posições de poder.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2015 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.