Questão 31 do ENEM 2024Linguagens

ENEM 2024Linguagens1ª aplicação

Cap. XLVIII / Terpsícore

Ao contrário do que ficou dito atrás, Flora não se aborreceu na ilha. Conjeturei mal, emendo-me a tempo. Podia aborrecer-se pelas razões que lá ficam, e ainda outras que poupei ao leitor apressado; mas, em verdade, passou bem a noite. A novidade da festa, a vizinhança do mar, os navios perdidos na sombra,
a cidade defronte com os seus lampiões de gás, embaixo e em cima, na praia e nos outeiros, eis aí aspectos novos que a encantaram durante aquelas horas rápidas.

Não lhe faltavam pares, nem conversação, nem alegria alheia e própria. Toda ela compartia da felicidade dos outros. Via, ouvia, sorria, esquecia-se do resto para se meter consigo. Também invejava a princesa imperial, que viria a ser imperatriz um dia, com o absoluto poder de despedir ministros e damas, visitas e requerentes, e ficar só, no mais recôndito do paço, fartando-se de contemplação ou de música. Era assim que Flora definia o ofício de governar. Tais ideias passavam e tornavam. De uma vez alguém lhe disse, como para lhe dar força: “Toda alma livre é imperatriz!”.

ASSIS, M. Esaú e Jacó. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1974.

Convidada para o último baile do Império, na Ilha Fiscal, localizada no Rio de Janeiro, Flora devaneia sobre aspectos daquele contexto, no qual o narrador ironiza a
A
promessa de esperança com o futuro regime.
alienação da elite em relação ao fim da monarquia.
Resposta correta
C
perspectiva da contemplação distanciada da capital.
D
animosidade entre população e membros da nobreza.
E
fantasia de amor e de casamento da mulher burguesa.
Gabarito oficial: alternativa B

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos conectar a interpretação do texto literário com o seu contexto histórico. O trecho retirado do romance Esaú e Jacó, de Machado de Assis, descreve a personagem Flora durante o famoso Baile da Ilha Fiscal, ocorrido no Rio de Janeiro.

O Contexto Histórico e a Ironia

O Baile da Ilha Fiscal aconteceu no dia 99 de novembro de 18891889. Foi uma festa luxuosa que reuniu a elite política e social do Brasil. O detalhe crucial que precisamos lembrar das aulas de História é o que aconteceu logo depois: seis dias após o baile, em 1515 de novembro de 18891889, ocorreu a Proclamação da República. Ou seja, aquele foi, literalmente, o último suspiro do Império Brasileiro.

No texto, Flora está deslumbrada com a festa e começa a devanear. Ela olha para a princesa imperial (a Princesa Isabel) e sente inveja, pois imagina que a princesa "viria a ser imperatriz um dia", com o "absoluto poder de despedir ministros e damas".

A ironia magistral de Machado de Assis reside exatamente nessa desconexão com a realidade. O narrador (e nós, leitores) sabe o final da história: a princesa nunca se tornará imperatriz, e a família real será exilada em poucos dias. Flora e toda a elite presente no baile estão celebrando e projetando um futuro de glória para um regime que já está morto. É como se estivessem dançando no convés do Titanic enquanto o navio afunda, completamente alheios à crise política e militar que fervilhava do lado de fora da festa.

Analisando as Alternativas

Com essa compreensão da ironia situacional e histórica, vamos avaliar as opções:

A) promessa de esperança com o futuro regime. Incorreta. O "futuro regime" seria a República. Flora não projeta esperança na República, mas sim na continuidade do Império, imaginando a princesa como futura imperatriz.

B) alienação da elite em relação ao fim da monarquia. Correta. A ironia do narrador atinge em cheio a cegueira da elite. Flora, representando essa classe, vive a ilusão do poder monárquico e ignora completamente o colapso iminente do sistema.

C) perspectiva da contemplação distanciada da capital. Incorreta. Embora Flora contemple a cidade de longe, a ironia não está na paisagem física, mas sim no equívoco político de seus pensamentos.

D) animosidade entre população e membros da nobreza. Incorreta. O texto descreve um ambiente de "alegria alheia e própria", sem qualquer menção a conflitos, protestos ou tensões com a população naquele momento.

E) fantasia de amor e de casamento da mulher burguesa. Incorreta. É preciso ter cuidado com clichês. Flora não está fantasiando com um príncipe encantado ou com um casamento romântico. O devaneio dela é estritamente sobre poder: ela inveja a capacidade de "despedir ministros" e o "ofício de governar".

Portanto, a alternativa que capta perfeitamente a crítica machadiana à bolha social em que a elite vivia às vésperas da queda do Império é a letra B.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2024 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.