Questão 32 do ENEM 2020Linguagens

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Carlos é hoje um homem dividido, Mário, e isso graças às suas cartas. Às vezes ele torce pelas palmeiras paródicas do Oswald de Andrade (a ninguém cá da erra passou despercebido o título que quer dar ao seu primeiro livro de poemas — Minha terra tem palmeiras). Às vezes não quer esquecer o gélido cinzel de Bilac e a prosa clássica dos decadentistas franceses, e à noite, ao ouvir o chamado da moça-fantasma, fica cismando ismálias em decassílabos rimados. Às vezes sucumbe ao trato cristão da condição humana e, à sombra dos rodapés de Tristão de Ataíde, tem uma recaída jacksoniana. Às vezes não sabe se prefere o barulho do motor do carro em disparada, ou se fica contemplando o sinal vermelho que impõe stop ao trânsito e silêncio ao cidadão. Às vezes entoa loas à vida besta, que devia jazer para sempre abandonada em Itabira. Mas na maioria das vezes sai saracoteando ironicamente pela rua macadamizada da poesia, que nem um pernóstico malandro escondido por detrás dos óculos e dos bigodes, ou melhor, que nem a foliona negra que você tanto admirou no Rio de Janeiro por ocasião das bacanais de Momo.

SANTIAGO, S. Contos antológicos de Silviano Santiago. São Paulo: Nova Alexandria, 2006.

Inspirado nas cartas de Mário de Andrade para Carlos Drummond de Andrade, o autor dá a esse material uma releitura criativa, atribuindo-lhe um remetente ficcional. O resultado é um texto de expressividade centrada na
A
hesitação na escolha de um modelo literário ideal.
colagem de estilos e estéticas na formação do escritor.
Resposta correta
C
confluência de vozes narrativas e de referências biográficas.
D
fragmentação do discurso na origem da representação poética.
E
correlação entre elementos da cultura popular e de origem erudita.
Gabarito oficial: alternativa B

Resolução comentada

Análise do texto e do enunciado

O narrador descreve o personagem "Carlos" (referência clara ao poeta Carlos Drummond de Andrade) como um "homem dividido", habitado por muitas influências diferentes. O comando pede que se identifique a principal característica expressiva desse texto.

Desvendando as referências literárias

A chave está em decodificar as referências introduzidas pela repetição de "Às vezes". Cada uma aponta para uma escola literária, um estilo ou uma vivência:

  • "palmeiras paródicas do Oswald de Andrade": a Primeira Geração do Modernismo, irreverente e paródica dos símbolos nacionais.
  • "gélido cinzel de Bilac": Olavo Bilac e o Parnasianismo, com seu rigor formal e sua objetividade (o "cinzel" do escultor).
  • "ismálias em decassílabos rimados": o poema Ismália, de Alphonsus de Guimaraens, e a musicalidade melancólica do Simbolismo.
  • "Tristão de Ataíde" e "recaída jacksoniana": a influência do pensamento católico e conservador.
  • "motor do carro" vs. "Itabira": o contraste entre o fascínio pela modernidade urbana e a memória da cidade natal mineira.
  • "malandro" e "bacanais de Momo": a cultura popular e o carnaval carioca.

A construção da identidade do escritor

Reunidas, essas referências não indicam que Carlos simplesmente não sabe o que quer. Pelo contrário: a expressividade do texto nasce de justapor todas essas peças — o moderno e o clássico, o erudito e o popular, o urbano e o provinciano — para formar a identidade complexa do poeta.

Essa técnica de sobrepor influências, escolas e vivências é o que se chama de colagem. O autor faz uma verdadeira colagem de estilos e estéticas para explicar a formação literária e cultural do escritor.

A letra A está incorreta porque não se trata de uma "hesitação" que paralisa, mas da absorção de múltiplas vertentes. A letra E cita a mistura de popular e erudito, mas é incompleta, pois deixa de fora as várias escolas literárias (Parnasianismo, Simbolismo, Modernismo).

Portanto, a alternativa correta é a B.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2020 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.