Questão 22 do ENEM 2020Linguagens

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Caso pluvioso

A chuva me irritava. Até que um dia
descobri que maria é que chovia.

A chuva era maria. E cada pingo
de maria ensopava o meu domingo.

E meus ossos molhando, me deixava
como terra que a chuva lavra e lava.

E eu era todo barro, sem verdura…
maria, chuvosíssima criatura!

Ela chovia em mim, em cada gesto,
pensamento, desejo, sono, e o resto.

Era chuva fininha e chuva grossa,
Matinal e noturna, ativa… Nossa!

ANDRADE, C. D. Viola de bolso. Rio de Janeiro: José Olympio, 1952 (fragmento).

Considerando-se a exploração das palavras “maria” e “chuvosíssima” no poema, conclui-se que tal recurso expressivo é um(a)
A
registro social típico de variedades regionais.
B
variante particular presente na oralidade.
inovação lexical singularizante da linguagem literária.
Resposta correta
D
marca de informalidade característica do texto literário.
E
traço linguístico exclusivo da linguagem poética
Gabarito oficial: alternativa C

Resolução comentada

Para resolvermos essa questão, precisamos analisar o que o poeta Carlos Drummond de Andrade faz com as palavras dentro do texto e qual é o efeito de sentido gerado por essa manipulação.

A manipulação das palavras no poema

O enunciado pede que foquemos em duas palavras específicas: "maria" e "chuvosíssima".

Primeiro, observe o uso de "maria". O poeta subverte a lógica comum ao afirmar que "maria é que chovia" e "A chuva era maria". Aqui, ocorre um desvio semântico: um substantivo próprio (nome de pessoa) passa a assumir o comportamento de um fenômeno da natureza, fundindo a mulher e a chuva em uma única imagem poética.

Em seguida, temos a palavra "chuvosíssima". Essa palavra não existe no vocabulário padrão da língua; ela é um neologismo. O autor a criou a partir de um processo de derivação, juntando o substantivo primitivo com sufixos formadores de adjetivo e de grau: chuva+oso+ıˊssima\text{chuva} + \text{oso} + \text{íssima}. O objetivo é criar um superlativo absoluto sintético para intensificar ao máximo a característica da personagem, algo que a expressão comum "muito chuvosa" não conseguiria transmitir com a mesma força sonora e poética.

Analisando as alternativas

O que esse recurso expressivo representa? Trata-se de uma liberdade criativa do autor para gerar expressividade. Vamos avaliar as opções:

As alternativas A e B estão incorretas porque não se trata de um registro regional ou de uma variante da oralidade cotidiana, mas sim de uma construção artística, elaborada e intencional.

A alternativa D também é incorreta, pois a criação de um neologismo estruturado com um sufixo superlativo não é uma mera marca de informalidade, mas um recurso estilístico.

A grande dúvida costuma ficar entre as alternativas C e E. A alternativa E afirma que esse é um traço linguístico exclusivo da linguagem poética. É aqui que mora a armadilha: a palavra "exclusivo" invalida a opção. A criação de neologismos e o uso de desvios semânticos ocorrem frequentemente na linguagem cotidiana, na publicidade, na prosa e até na internet (como a palavra "deletar", que um dia foi um neologismo). Portanto, não é uma exclusividade da poesia.

A alternativa C é a correta. O que Drummond faz é uma inovação lexical (inventar palavras e dar novos usos a termos existentes) que tem a função de singularizar (tornar única, especial, original) a linguagem literária do seu poema. Ele quebra a expectativa do leitor e foge do padrão utilitário da língua para criar uma experiência estética nova.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2020 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.