Questão 90 do ENEM 2020Ciências Humanas

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Chamando o repórter de “cidadão”, em 1904, o preto acapoeirado justificava a revolta: era para “não andarem dizendo que o povo é carneiro. De vez em quando é bom a negrada mostrar que sabe morrer como homem!”. Para ele, a vacinação em si não era importante — embora não admitisse de modo algum deixar os homens da higiene meter o tal ferro em suas virilhas. O mais importante era “mostrar ao governo que ele não põe o pé no pescoço do
povo”.

CARVALHO, J. M. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi.
São Paulo: Cia. das Letras, 1987 (adaptado).

A referida Revolta, ocorrida na cidade do Rio de Janeiro no início da República, caracterizou-se por ser uma
A
agitação incentivada pelos médicos.
atitude de resistência dos populares.
Resposta correta
C
estratégia elaborada pelos operários.
D
tática de sobrevivência dos imigrantes.
E
ação de insurgência dos comerciantes.
Gabarito oficial: alternativa B

Resolução comentada

A questão aborda um dos episódios mais marcantes da Primeira República no Brasil: a Revolta da Vacina, ocorrida no Rio de Janeiro em 19041904. Para resolvermos, precisamos analisar o contexto histórico e as informações trazidas pelo texto-base.

No início do século XX, a cidade do Rio de Janeiro (então capital federal) passava por intensas reformas urbanas e sanitárias, lideradas pelo prefeito Pereira Passos e pelo médico sanitarista Oswaldo Cruz. Essas reformas, conhecidas popularmente como "bota-abaixo", resultaram na demolição de cortiços e na expulsão da população pobre do centro da cidade, empurrando-a para os morros e periferias.

Somado a esse cenário de exclusão social, o governo aprovou a Lei da Vacinação Obrigatória contra a varíola. A forma autoritária como a campanha foi conduzida — com agentes de saúde (os "homens da higiene" citados no texto) invadindo casas, muitas vezes acompanhados de força policial — foi o estopim para a revolta.

Analisando o trecho do historiador José Murilo de Carvalho, notamos a fala de um "preto acapoeirado" (representante das camadas populares) que justifica a revolta não apenas pela vacina em si, mas como uma forma de impor limites ao autoritarismo do Estado: "mostrar ao governo que ele não põe o pé no pescoço do povo".

Dessa forma, a revolta não foi uma ação de médicos, operários organizados, imigrantes ou comerciantes, mas sim uma explosão espontânea e uma atitude de resistência dos populares contra as medidas arbitrárias e excludentes do governo republicano.

Portanto, a alternativa correta é a que identifica o movimento como uma resistência popular.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2020 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.