Questão 20 do ENEM 2010Ciências Humanas

ENEM 2010Ciências Humanas2ª aplicação

Chegança

Sou Pataxó,
Sou Xavante e Carriri,
Ianomâmi, sou Tupi
Guarani, sou Carajá.
Sou Pancaruru,
Carijó, Tupinajé,
Sou Potiguar, sou Caeté,
Ful-ni-ô, Tupinambá.

Eu atraquei num porto muito seguro,
Céu azul, paz e ar puro...
Botei as pernas pro ar.
Logo sonhei que estava no paraíso,
Onde nem era preciso dormir para sonhar.

Mas de repente me acordei com a surpresa:
Uma esquadra portuguesa veio na praia atracar.
Da grande-nau,
Um branco de barba escura,
Vestindo uma armadura me apontou pra me pegar.
E assustado dei um pulo da rede,
Pressenti a fome, a sede,
Eu pensei: “vão me acabar”.
Levantei-me de Borduna já na mão.
Aí, senti no coração,
O Brasil vai começar.

NÓBREGA, A; e FREIRE, W. CD Pernambuco falando para o mundo, 1998.

A letra da canção apresenta um tema recorrente na história da colonização brasileira, as relações de poder entre portugueses e povos nativos, e representa uma crítica à ideia presente no chamado mito
A
da democracia racial, originado das relações cordiais estabelecidas entre portugueses e nativos no período anterior ao início da colonização brasileira.
B
da cordialidade brasileira, advinda da forma como os povos nativos se associaram economicamente aos portugueses, participando dos negócios coloniais açucareiros.
C
do brasileiro receptivo, oriundo da facilidade com que os nativos brasileiros aceitaram as regras impostas pelo colonizador, o que garantiu o sucesso da colonização.
D
da natural miscigenação, resultante da forma como a metrópole incentivou a união entre colonos, ex-escravas e nativas para acelerar o povoamento da colônia.
do encontro, que identifica a colonização portuguesa como pacífica em função das relações de troca estabelecidas nos primeiros contatos entre portugueses e nativos.
Resposta correta
Gabarito oficial: alternativa E

Resolução comentada

A questão exige a interpretação da letra da canção Chegança e sua relação com a historiografia sobre o início da colonização do Brasil.

Ao lermos a letra, percebemos que o eu-lírico assume a identidade de diversos povos indígenas brasileiros (Pataxó, Xavante, Tupi, Guarani, etc.), representando a pluralidade e a união dos nativos. Ele descreve o momento da chegada dos portugueses não como um evento amigável, mas como uma invasão ameaçadora. Trechos como "Um branco de barba escura, / Vestindo uma armadura me apontou pra me pegar", "Pressenti a fome, a sede, / Eu pensei: 'vão me acabar'" e "Levantei-me de Borduna já na mão" evidenciam um cenário de violência, dominação e resistência armada por parte dos indígenas.

Historicamente, a chegada dos portugueses ao Brasil foi muitas vezes romantizada nos livros didáticos mais antigos como um "descobrimento" ou um "encontro de culturas" pacífico, marcado pela curiosidade mútua e pelas relações de troca (o escambo). Essa visão suaviza a violência da conquista, a escravização indígena e o genocídio que se seguiram.

A canção faz uma crítica direta a essa visão romantizada. Ao mostrar o indígena pegando em armas (a borduna) para se defender da ameaça iminente, a letra desconstrói o mito do encontro pacífico.

Analisando as alternativas:

  • A, B, C e D trazem conceitos (como democracia racial, cordialidade, receptividade passiva e miscigenação natural) que também são criticados pela historiografia moderna, mas que não se alinham ao foco específico da música, que é o momento exato da chegada dos portugueses e a reação de defesa e percepção de ameaça por parte dos indígenas.
  • A alternativa E descreve perfeitamente o alvo da crítica da canção: o mito de que o contato inicial foi apenas um encontro pacífico baseado em trocas comerciais, ignorando a violência e a imposição de poder que marcaram o início da colonização.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2010 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.