Questão 124 do ENEM 2010Linguagens

ENEM 2010Linguagens1ª aplicação

Choque a 36 000 km/h

A faixa que vai de 160 quilômetros de altitude em volta da terra assemelha-se a uma avenida congestionada  onde orbitam 3 000 satélites ativos. Eles disputam espaço com 17 000 fragmentos de artefatos lançados pela  Terra e que se desmancharam – foguetes, satélites desativados e até ferramentas perdidas por astronautas. Com um tráfego celeste tão intenso, era questão de tempo para que acontecesse um acidente de grandes proporções, como o da semana passada. Na terça-feira, dois satélites em órbita desde os anos 90 colidiram em um ponto 790 quilômetros acima da Sibéria. A trombada dos satélites chama a atenção para os riscos que oferece a montanha de lixo espacial em órbita. Como os objetos viajam a grande velocidade, mesmo um  pequeno fragmento de 10 centímetros poderia causar estragos consideráveis no telescópio Hubble ou na estação espacial Internacional — nesse caso pondo em risco a vida dos astronautas que lá trabalham.

Revista Veja. 18 set. 2009 (adaptado).

Levando-se em consideração os elementos constitutivos de um texto jornalístico, infere-se que o autor teve como objetivo
A
exaltar o emprego da língua figurada.
B
criar suspense e despertar temor no leitor.
influenciar a opinião dos leitores sobre o tema, com as marcas argumentativas de seu posicionamento.
Resposta correta
D
induzir o leitor a pensar que os satélites artificiais representam um grande perigo para toda a humanidade.
E
exercitar a ironia ao empregar “avenida congestionada”; “tráfego celeste tão intenso”; “montanha de lixo”.
Gabarito oficial: alternativa C

Resolução comentada

Compreendendo o Comando da Questão

A questão nos pede para identificar a real intenção do autor ao escrever este texto jornalístico. Para isso, não basta apenas ler os dados apresentados; precisamos prestar muita atenção nas palavras que o autor escolheu para contar essa história.

Analisando o Texto e seus Conceitos

Um texto jornalístico tem como base informar o leitor sobre fatos. No entanto, ele raramente é 100%100\% neutro. Muitas vezes, o autor deixa "pistas" do seu ponto de vista, que chamamos de marcas argumentativas.

No texto, temos dados puramente objetivos, como a velocidade de 36000 km/h36\,000\text{ km/h}, a existência de 30003\,000 satélites ativos e 1700017\,000 fragmentos, além da colisão a 790 km790\text{ km} de altitude. Se o objetivo fosse apenas informar, o texto pararia por aí.

Porém, o autor utiliza uma linguagem figurada (metáforas) e expressões com forte carga de valor para descrever a situação:

  • "assemelha-se a uma avenida congestionada"
  • "tráfego celeste tão intenso"
  • "montanha de lixo espacial"

Essas escolhas não são acidentais. A órbita terrestre não é literalmente uma avenida nem possui uma montanha, mas o uso dessas palavras cria uma imagem mental poderosa de desordem, caos e perigo iminente. O autor está, portanto, construindo um argumento para nos alertar sobre a gravidade do problema.

Avaliando as Alternativas

Com essa análise em mente, vamos olhar para as opções:

  • A) Incorreta. A língua figurada é apenas uma ferramenta (um meio) que o autor usa para se expressar, e não o objetivo final do texto. Ele não escreveu a reportagem apenas para mostrar que sabe usar metáforas.
  • B) Incorreta. Embora o texto possa gerar certa apreensão ao citar o risco à vida dos astronautas, criar suspense ou terror não é o objetivo central. O alerta serve a um propósito maior de conscientização.
  • C) Correta. Esta alternativa descreve perfeitamente a estratégia do texto. O autor utiliza as marcas argumentativas (as metáforas e adjetivos fortes) para evidenciar o seu posicionamento e, com isso, influenciar a opinião do leitor sobre a seriedade do lixo espacial.
  • D) Incorreta. Há um exagero aqui. O texto aponta perigos reais para equipamentos (como o telescópio Hubble) e para os astronautas na Estação Espacial Internacional, mas não afirma que é um perigo para "toda a humanidade" na Terra.
  • E) Incorreta. As expressões citadas não configuram ironia. A ironia ocorre quando dizemos o oposto do que queremos expressar (por exemplo, chamar de "limpinho" um lugar muito sujo). No texto, as expressões são metáforas usadas de forma direta para enfatizar o problema real.

Portanto, a intenção do autor vai além de informar: ele quer moldar a percepção do leitor sobre o tema.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2010 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.