Questão 69 do ENEM 2009Ciências Humanas

ENEM 2009Ciências Humanas1ª aplicação

Como se assistisse à demonstração de um espetáculo mágico, ia revendo aquele ambiente tão característico de família, com seus pesados móveis de vinhático ou de jacarandá, de qualidade antiga, e que denunciavam um passado ilustre, gerações de Meneses talvez mais singelos e mais calmos; agora, uma espécie de desordem, de relaxamento, abastardava aquelas qualidades primaciais. Mesmo assim era fácil perceber o que haviam sido, esses nobres da roça, com seus cristais que brilhavam mansamente na sombra, suas pratas semi- empoeiradas que atestavam o esplendor esvanecido, seus marfins e suas opalinas – ah, respirava-se ali conforto, não havia dúvida, mas era apenas uma sobrevivência de coisas idas. Dir-se-ia, ante esse mundo que se ia desagregando, que um mal oculto o roía, como um tumor latente em suas entranhas.

CARDOSO, L. Crônica da casa assassinada. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002 (adaptado).

O mundo narrado nesse trecho do romance de Lúcio Cardoso, acerca da vida dos Meneses, família da aristocracia rural de Minas Gerais, apresenta não apenas a história da decadência dessa família, mas é, ainda, a representação literária de uma fase de desagregação política, social e econômica do país. O recurso expressivo que formula literariamente essa desagregação histórica é o de descrever a casa dos Meneses como
A
ambiente de pobreza e privação, que carece de conforto mínimo para a sobrevivência da família.
B
mundo mágico, capaz de recuperar o encantamento perdido durante o período de decadência da aristocracia rural mineira.
C
cena familiar, na qual o calor humano dos habitantes da casa ocupa o primeiro plano, compensando a frieza e austeridade dos objetos antigos.
D
símbolo de um passado ilustre que, apesar de superado, ainda resiste à sua total dissolução graças ao cuidado e asseio que a família dispensa à conservação da casa.
espaço arruinado, onde os objetos perderam seu esplendor e sobre os quais a vida repousa como lembrança de um passado que está em vias de desaparecer completamente.
Resposta correta
Gabarito oficial: alternativa E

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar atentamente o trecho do romance Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso, e entender como a descrição do ambiente físico reflete a decadência da família Meneses e, por extensão, a desagregação histórica da aristocracia rural brasileira.

O texto nos apresenta um ambiente que já foi grandioso, mas que agora se encontra em declínio. Podemos perceber isso através de várias expressões utilizadas pelo narrador:

  • Passado ilustre: Os "pesados móveis de vinhático ou de jacarandá" denunciam um passado de riqueza e nobreza.
  • Decadência e abandono: O narrador nota "uma espécie de desordem, de relaxamento" e descreve as pratas como "semi-empoeiradas", o que atesta um "esplendor esvanecido".
  • Fim de uma era: O ambiente é descrito como "apenas uma sobrevivência de coisas idas" e um "mundo que se ia desagregando", corroído por um "mal oculto".

Agora, vamos avaliar as alternativas com base nessa interpretação:

A) Incorreta. O texto afirma explicitamente que "respirava-se ali conforto, não havia dúvida", o que invalida a ideia de que o ambiente carece de conforto mínimo ou seja de extrema pobreza.

B) Incorreta. A expressão "espetáculo mágico" é usada apenas como uma comparação inicial para descrever a sensação do narrador ao observar a cena. O ambiente não é capaz de recuperar o encantamento perdido; pelo contrário, ele evidencia a ruína.

C) Incorreta. O foco do trecho está na descrição dos objetos (móveis, cristais, pratas, marfins) e no ambiente físico que reflete a decadência, e não no "calor humano" dos habitantes.

D) Incorreta. O texto menciona que há "desordem", "relaxamento" e pratas "semi-empoeiradas", o que contradiz diretamente a afirmação de que a família dispensa "cuidado e asseio" à conservação da casa.

E) Correta. A alternativa sintetiza perfeitamente a mensagem do texto. A casa é um espaço arruinado (em desagregação), onde os objetos perderam seu brilho original ("esplendor esvanecido", pratas "semi-empoeiradas") e o ambiente é apenas um resquício de uma época gloriosa que está chegando ao fim ("sobrevivência de coisas idas").

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Fonte: prova oficial do ENEM 2009 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.