Questão 14 do ENEM 2011Ciências Humanas

ENEM 2011Ciências Humanas2ª aplicação

Como tratar com os índios

A experiência de trezentos anos tem feito ver que a aspereza é um meio errado para domesticar os índios; parece, pois, que brandura e afago são os meios que nos restam. Perdoar-lhes alguns excessos, de que sem dúvida seria causa a sua barbaridade e longo hábito com a falta de leis. Os habitantes da América são menos sanguinários do que os negros d’África, mais mansos, tratáveis e hospitais.

VILHENA, L. S. A Bahia no século XVIII. Salvador: Itapuã, 1969 (adaptado).

O escritor português Luís Vilhena escreve, no século XVIII, sobre um tema recorrente para os homens da sua época. Seu posicionamento emerge de um contexto em que
A
o índio, pela sua condição de ingenuidade, representava uma possibilidade de mão de obra nas indústrias.
B
a abolição da escravatura abriu uma lacuna na cadeia produtiva, exigindo, dessa forma, o trabalho do nativo.
o nativo indígena, estereotipado como um papel em branco, deveria adequar-se ao mundo do trabalho compulsório.
Resposta correta
D
a escravidão do indígena apresentou-se como alternativa de mão de obra assalariada para a lavoura açucareira.
E
a escravidão do negro passa a ser substituída pela indígena, sob a alegação de os primeiros serem selvagens.
Gabarito oficial: alternativa C

Resolução comentada

O texto de Luís Vilhena, escrito no século XVIII\text{XVIII}, traz uma reflexão sobre a melhor forma de lidar com as populações indígenas no Brasil Colônia. Para compreender a questão, precisamos analisar o contexto histórico e a visão eurocêntrica da época.

O autor sugere que a "aspereza" (violência física direta) falhou em "domesticar" os indígenas ao longo de trezentos anos e propõe o uso de "brandura e afago". É fundamental perceber que essa suposta gentileza não nasce de um respeito à cultura ou aos direitos indígenas, mas sim de uma estratégia de dominação. O objetivo final continuava sendo o mesmo: submeter o nativo aos interesses da Coroa Portuguesa, o que incluía a catequização e a exploração de sua mão de obra.

Vilhena descreve os indígenas como "mansos" e "tratáveis", o que reflete um estereótipo comum da época: a visão do nativo como um "papel em branco", alguém ingênuo e moldável, que poderia ser facilmente aculturado e inserido no sistema de trabalho compulsório (forçado) da colônia, caso fossem utilizadas as técnicas corretas de convencimento e coerção moral, muitas vezes mediadas por ordens religiosas.

Analisando as alternativas:

  • A alternativa A está incorreta porque não havia "indústrias" no Brasil do século XVIII\text{XVIII}. A economia era fundamentalmente agrária e extrativista.
  • A alternativa B é anacrônica. A abolição da escravatura no Brasil ocorreu apenas no final do século XIX\text{XIX} (em 18881888), muito depois do período retratado no texto.
  • A alternativa C é a correta. Ela sintetiza perfeitamente a mentalidade colonial exposta no texto: o indígena, visto de forma estereotipada como dócil e moldável (um "papel em branco"), deveria ser "domesticado" para se adequar ao mundo do trabalho compulsório que sustentava a colônia.
  • A alternativa D erra ao falar em "mão de obra assalariada". O trabalho na lavoura açucareira e em outras atividades coloniais era predominantemente escravo ou compulsório, não assalariado.
  • A alternativa E também é falsa. A escravidão africana não foi substituída pela indígena sob essa alegação. Na verdade, ao longo da história colonial, a escravidão africana consolidou-se como a base da economia de exportação, enquanto a exploração do trabalho indígena ocorria de forma paralela, muitas vezes disfarçada sob o sistema de aldeamentos administrados por missionários.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2011 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.