Questão 22 do ENEM 2025Linguagens

ENEM 2025LinguagensBelém

Coração tição

Quero me lambuzar nos mares negros
para não me perder,
conseguir chegar no meu destino.

Não quero ser parda, mulata
Sou afro-brasileira-mineira.
Bisneta
de uma princesa de Benguela.

Não serei refém de valores
que não me pertencem.
Quero sentir meu coração
como um tição.

Não vou deixar que o mito
do fogo entre as pernas iluda e desvie
homens e mulheres
daqui por diante.

CRUZ, A. E... Feito luz. Florianópolis: ND, 2006.

Nesse poema, o jogo entre afirmações e negações reflete a expressividade de um eu lírico que
recusa imposições historicamente forjadas.
Resposta correta
B
desenha sua identidade por meio da memória.
C
resgata heranças míticas do território africano.
D
reivindica o reconhecimento de sua feminilidade.
E
rejeita a noção de emotividade associada a gênero.
Gabarito oficial: alternativa A

Resolução comentada

A questão exige a interpretação de um poema contemporâneo, focando especificamente no efeito de sentido gerado pela alternância entre afirmações e negações feitas pelo eu lírico.

Ao analisarmos o texto, percebemos que as negações estão sempre ligadas a rótulos, estereótipos e valores que a sociedade tenta impor à mulher negra. Por exemplo, nos versos "Não quero ser parda, mulata", o eu lírico rejeita categorias raciais que, historicamente, foram usadas para diluir a identidade negra ou que carregam conotações pejorativas ligadas ao período escravocrata. Em contrapartida, a afirmação vem logo a seguir: "Sou afro-brasileira-mineira", assumindo o controle sobre a própria identidade e ancestralidade.

Outras negações reforçam essa postura de resistência: "Não serei refém de valores / que não me pertencem" e "Não vou deixar que o mito / do fogo entre as pernas iluda e desvie". Esse último trecho faz uma crítica direta à hipersexualização histórica do corpo da mulher negra (o "mito do fogo entre as pernas").

Dessa forma, o jogo entre o que o eu lírico não é (ou não aceita ser) e o que ele é reflete uma postura ativa de recusa a estereótipos e imposições que foram construídos (forjados) ao longo da história do Brasil.

Analisando as alternativas:

  • A) recusa imposições historicamente forjadas. Correta. O eu lírico rejeita termos ("parda, mulata"), valores alheios e mitos hipersexualizantes que foram historicamente impostos às mulheres negras.
  • B) desenha sua identidade por meio da memória. Embora a memória apareça ("Bisneta / de uma princesa de Benguela"), o comando da questão foca no "jogo entre afirmações e negações", que tem como objetivo principal a recusa de rótulos, e não apenas a lembrança.
  • C) resgata heranças míticas do território africano. Incorreta. O poema cita um mito ("do fogo entre as pernas") para rejeitá-lo, pois se trata de um estereótipo machista e racista, e não de uma herança mítica africana a ser resgatada.
  • D) reivindica o reconhecimento de sua feminilidade. Incorreta. O poema não busca o reconhecimento de uma feminilidade padrão, mas sim a desconstrução de estereótipos raciais e de gênero.
  • E) rejeita a noção de emotividade associada a gênero. Incorreta. O texto não aborda a emotividade como uma questão central, mas sim a identidade étnico-racial e a quebra de preconceitos.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2025 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.