D’SALETE, M. Cumbe. São Paulo: Veneta. 2016, p. 10-11 (adaptado).
Questão 43 do ENEM 2021 — Linguagens
Resolução comentada
A sequência de quadrinhos é da obra Cumbe, de Marcelo D'Salete, que retrata a experiência de africanos escravizados no Brasil colonial. Para responder, precisamos observar como a página coloca lado a lado dois registros opostos: o lirismo e a violência.
Onde está o lirismo
Os quadrinhos trazem a dimensão afetiva e ancestral dos personagens. Há a menção ao Calunga ("o mar que não acaba"), contada pelo Tata, e o vocabulário de origem banto que estrutura a fala das personagens. Vê-se também o gesto de proximidade entre as figuras e a projeção de um destino compartilhado ("podemos ficar juntos lá na outra terra"). Esse conjunto — língua ancestral, espiritualidade e afeto — compõe o tom lírico da narrativa.
Onde está a violência
A violência aparece de forma gráfica e inequívoca no último quadrinho, que mostra as costas de um personagem cobertas por marcas profundas de chicotadas. Essas cicatrizes são o registro visual direto da brutalidade do sistema escravocrata sobre o corpo.
A conjugação dos dois: resistência
O sistema escravista buscava desumanizar o indivíduo — apagar sua cultura, sua língua e seus laços afetivos, reduzindo-o a força de trabalho. Ao colocar frente a frente as marcas dessa violência (as cicatrizes) e a permanência do afeto, da espiritualidade e da língua ancestral, a narrativa mostra que essa tentativa de apagamento não se completou. Manter viva a própria cultura e os próprios sentimentos, mesmo sob a opressão, é em si um ato de resistência identitária.
Análise das alternativas
- A) sugerir a impossibilidade de manutenção dos afetos. Incorreta. A página mostra justamente o contrário: o afeto e a proximidade entre os personagens permanecem.
- B) revelar os corpos marcados pela brutalidade colonial. Incorreta. As cicatrizes existem, mas essa leitura contempla apenas o polo da violência, sem a conjugação com o lirismo que o comando exige.
- C) representar o abatimento diante da desumanidade vivida. Incorreta. Não há mera resignação: os personagens projetam um futuro juntos e mantêm sua esperança.
- D) acentuar a resistência identitária dos povos escravizados. Correta. Unir o lirismo (afeto, língua e espiritualidade ancestrais) à violência (as marcas da escravidão) evidencia que a identidade e a humanidade desses povos resistiram à tentativa de aniquilamento.
- E) expor os sujeitos alijados de sua ancestralidade pelo exílio. Incorreta. A presença de referências como o Tata e o Calunga mostra que os laços ancestrais foram mantidos, não perdidos.
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Fonte: prova oficial do ENEM 2021 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.