Questão 44 do ENEM 2011Ciências Humanas

ENEM 2011Ciências Humanas2ª aplicação

De março de 1931 a fevereiro de 1940, foram decretadas mais de 150 leis novas de proteção social e de regulamentação do trabalho em todos os setores. Todas elas têm sido simplesmente uma dádiva do governo. Desde aí, o trabalhador brasileiro encontra nos quadros gerais do regime o seu verdadeiro lugar.

DANTAS, M. A força nacionalizadora do Estado Novo. Rio de Janeiro: DIP, 1942.

De que maneira as políticas e as mudanças jurídico institucionais implementadas pelo governo de Getúlio Vargas nas décadas de 1930-1940 responderam às lutas e às reivindicações dos trabalhadores?
A
A criação do Ministério do Trabalho garantiu ao operariado urbano e aos trabalhadores rurais liberdade e autonomia para organizar suas atividades sindicais.
B
A legislação do trabalho e previdência passou a impedir que imigrantes substituíssem brasileiros natos no serviço público, na indústria, no comércio e na agricultura.
C
A Justiça do Trabalho passou a arbitrar os conflitos entre capital e trabalho e, sistematicamente, a apurar e punir os casos de trabalho escravo e infantil no interior do país.
A legislação e as instituições criadas atendiam às reivindicações dos trabalhadores urbanos, mas dentro de estruturas jurídicas e sindicais tuteladas e corporativistas.
Resposta correta
E
A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) suprimiu o arbítrio oficial dos empresários e fazendeiros sobre as atividades políticas de operários e camponeses.
Gabarito oficial: alternativa D

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar a política trabalhista implementada durante a Era Vargas, especialmente no período do Estado Novo (19371937-19451945). O texto de apoio, produzido pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), apresenta as leis trabalhistas como uma "dádiva" (um presente) do governo aos trabalhadores. Nosso objetivo é entender o que estava por trás dessa propaganda e como o governo realmente lidou com as reivindicações operárias.

O Trabalhismo Varguista: Direitos e Controle

A relação de Getúlio Vargas com os trabalhadores foi marcada por uma forte dualidade, que podemos resumir na ideia de "concessão de direitos com controle estatal".

Por um lado, o governo atendeu a diversas demandas históricas do movimento operário, que lutava por melhores condições desde o início do século XX. Foram criadas leis que garantiam jornada de trabalho de 88 horas, férias remuneradas, salário mínimo e, em 19431943, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

Por outro lado, essa concessão não foi gratuita. Para receber esses direitos, os trabalhadores tiveram que abrir mão de sua autonomia política e sindical. O governo Vargas implementou um modelo corporativista, que negava a luta de classes e pregava a colaboração entre patrões e empregados sob a rígida mediação do Estado.

Além disso, os sindicatos passaram a ser tutelados (controlados) pelo Ministério do Trabalho. Eles só podiam funcionar com autorização do governo, greves foram proibidas e líderes sindicais independentes foram reprimidos, sendo substituídos por interventores alinhados ao governo (os chamados "pelegos").

Análise das Alternativas

Com base nesse contexto, vamos avaliar as opções:

  • Alternativa A: Incorreta. A criação do Ministério do Trabalho fez exatamente o oposto: retirou a liberdade e a autonomia dos sindicatos. Além disso, a legislação varguista focou quase exclusivamente nos trabalhadores urbanos, deixando os trabalhadores rurais desamparados.
  • Alternativa B: Incorreta. Embora existisse a "Lei dos Dois Terços" (que obrigava empresas a terem maioria de funcionários brasileiros), essa não foi a principal resposta às lutas por direitos trabalhistas e previdenciários.
  • Alternativa C: Incorreta. A Justiça do Trabalho atuava principalmente nos centros urbanos. A apuração e punição de trabalho escravo e infantil no interior do país não ocorriam de forma sistemática nessa época.
  • Alternativa D: Correta. Esta alternativa descreve perfeitamente a "letra miúda" do trabalhismo de Vargas: as leis atendiam às reivindicações dos trabalhadores urbanos, mas os aprisionavam em estruturas jurídicas e sindicais controladas pelo Estado (tuteladas) e baseadas na colaboração de classes (corporativistas).
  • Alternativa E: Incorreta. A CLT regulamentou as relações de trabalho, mas não acabou com o arbítrio político de empresários e fazendeiros, muito menos garantiu liberdade política para operários e camponeses, já que o próprio Estado Novo era uma ditadura repressiva.

Portanto, a resposta do governo Vargas foi uma combinação de atendimento a demandas materiais e anulação da independência política do movimento operário.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2011 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.