Questão 8 do ENEM 2023Linguagens

ENEM 2023Linguagens1ª aplicação

De quem é esta língua?

Uma pequena editora brasileira, a Urutau, acaba de lançar em Lisboa uma “antologia antirracista de poetas estrangeiros em Portugal”, com o título Volta para a tua terra.

O livro denuncia as diversas formas de racismo a que os imigrantes estão sujeitos. Alguns dos poetas brasileiros antologiados queixam-se do desdém com que um grande número de portugueses acolhe o português brasileiro. É uma queixa frequente.

“Aqui em Portugal eles dizem / — eles dizem – / que nosso português é errado, que nós não falamos português”, escreve a poetisa paulista Maria Giulia Pinheiro, para concluir: “Se a sua linguagem, a lusitana, / ainda conserva a palavra da opressão / ela não é a mais bonita do mundo./ Ela é uma das mais violentas”.

AGUALUSA, J. E. Disponível em: https.iloglobo.globo.com Acesso em: 22 nov. 2021 (adaptado).

O texto de Agualusa tematiza o preconceito em relação ao português brasileiro. Com base no trecho citado pelo autor, infere-se que esse preconceito se deve
A
à dificuldade de consolidação da literatura brasileira em outros países.
B
aos diferentes graus de instrução formal entre os falantes de língua portuguesa.
à existência de uma língua ideal que alguns falantes lusitanos creem ser a falada em Portugal.
Resposta correta
D
ao intercâmbio cultural que ocorre entre os povos dos diferentes países de língua portuguesa.
E
à distância territorial entre os falantes do português que vivem em Portugal e no Brasil.
Gabarito oficial: alternativa C

Resolução comentada

A questão aborda um tema muito presente nos estudos de linguagem: o preconceito linguístico. O texto de José Eduardo Agualusa relata a experiência de poetas brasileiros em Portugal, destacando a queixa de que muitos portugueses tratam o português brasileiro com desdém.

Para entender a raiz desse preconceito, precisamos analisar o trecho do poema de Maria Giulia Pinheiro citado no texto: “Aqui em Portugal eles dizem / [...] / que nosso português é errado, que nós não falamos português”.

Essa fala evidencia uma atitude de superioridade linguística. Quando alguns portugueses afirmam que os brasileiros falam "errado" ou que "não falam português", eles estão partindo do pressuposto de que existe apenas uma forma correta e legítima de falar o idioma: a variante europeia (lusitana). Essa visão ignora que as línguas são vivas, dinâmicas e sofrem variações naturais ao longo do tempo e do espaço. O preconceito, portanto, nasce da crença ilusória de que a língua falada em Portugal é a "língua ideal" ou "pura", servindo como único padrão aceitável.

Vamos analisar por que as outras alternativas não respondem à questão:

  • A alternativa A está incorreta porque o texto não discute a dificuldade de vender ou consolidar livros brasileiros no exterior, mas sim a discriminação contra a forma de falar do brasileiro.
  • A alternativa B está incorreta pois o preconceito relatado não se baseia no nível de escolaridade (instrução formal) dos falantes, mas sim na sua origem geográfica (Brasil vs. Portugal).
  • A alternativa D fala sobre intercâmbio cultural. Embora ele exista, não é a causa do preconceito. Na verdade, o preconceito é um obstáculo a esse intercâmbio.
  • A alternativa E menciona a distância territorial. A separação geográfica explica por que o português do Brasil e o de Portugal se tornaram diferentes (variação linguística), mas o preconceito em si não nasce da distância, e sim da intolerância e da crença de que uma variante é superior à outra.

Dessa forma, conclui-se que a atitude discriminatória relatada no texto se fundamenta na crença de uma supremacia linguística por parte de alguns falantes europeus.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2023 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.