Questão 17 do ENEM 2016Linguagens

ENEM 2016Linguagens2ª aplicação

Descobrimento

Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De sopetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.
Não vê que me lembrei que lá no norte, meu Deus! Muito
longe de mim,
Na escuridão ativa da noite que caiu,
Um homem pálido, magro de cabelos escorrendo nos olhos
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.
Esse homem é brasileiro que nem eu…

ANDRADE, M. Poesias completas. São Paulo: Edusp, 1987

O poema Descobrimento, de Mário de Andrade, marca a postura nacionalista manifestada pelos escritores modernistas. Recuperando o fato histórico do “descobrimento”, a construção poética problematiza a representação nacional a fim de
A
resgatar o passado indígena brasileiro.
B
criticar a colonização portuguesa no Brasil.
defender a diversidade social e cultural brasileira.
Resposta correta
D
promover a integração das diferentes regiões do país.
E
valorizar a Região Norte, pouco conhecida pelos brasileiros.
Gabarito oficial: alternativa C

Resolução comentada

A questão exige a interpretação do poema "Descobrimento", de Mário de Andrade, um dos principais autores da primeira fase do Modernismo brasileiro. Para resolver, precisamos analisar o contraste construído nos versos e o significado do título da obra.

O título "Descobrimento" não se refere à chegada dos portugueses em 15001500, mas sim a um "redescobrimento" do Brasil pelos próprios brasileiros, uma proposta central do movimento modernista de 19221922. Os modernistas buscavam compreender a verdadeira identidade nacional, afastando-se de visões idealizadas ou eurocêntricas.

No poema, o eu lírico descreve sua própria realidade: está em São Paulo, sentado à escrivaninha em sua casa, um ambiente urbano, confortável e intelectualizado. De repente, ele é tomado por uma comoção ao se lembrar de uma realidade completamente diferente da sua: a de um trabalhador no Norte do país. Esse homem é descrito como "pálido, magro", que trabalha na extração de látex ("fazer uma pele com a borracha do dia") e que, exausto, "faz pouco se deitou, está dormindo".

O ponto alto do poema está no último verso: "Esse homem é brasileiro que nem eu…". Ao colocar lado a lado o intelectual paulista e o seringueiro nortista, Mário de Andrade evidencia as profundas desigualdades e diferenças regionais, econômicas e culturais do país. O "descobrimento" do eu lírico é a tomada de consciência dessa pluralidade. Ele percebe que a identidade nacional não é única ou homogênea, mas sim formada por múltiplas realidades.

Analisando as alternativas:

  • A alternativa A está incorreta, pois o poema foca em um trabalhador contemporâneo (o seringueiro), e não no passado indígena.
  • A alternativa B está incorreta, pois não há uma crítica direta à colonização portuguesa nestes versos.
  • A alternativa C é a correta. O poema problematiza a representação nacional justamente para evidenciar e defender a imensa diversidade social e cultural do Brasil, mostrando que realidades tão distintas compõem a mesma nação.
  • A alternativa D está incorreta, pois o texto constata a distância e a diferença, mas não propõe um projeto de integração regional.
  • A alternativa E está incorreta, pois o objetivo não é apenas valorizar a Região Norte, mas sim contrastá-la com o Sudeste para revelar a pluralidade do povo brasileiro.

Portanto, a alternativa correta é a C.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2016 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.