Questão 23 do ENEM 2021Linguagens

ENEM 2021LinguagensPPL

Descobrimento

Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei lá no norte, meu Deus!
[Muito longe de mim,
Na escuridão ativa da noite que caiu,
Um homem pálido, magro de cabelo escorrendo
[nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu...

ANDRADE, M. Poesias completas. Belo Horizonte: Villa Rica, 1993.

O poema modernista de Mário de Andrade revisita o tema do nacionalismo de forma irônica ao
A
referendar estereótipos étnicos e sociais ligados ao brasileiro nortista.
B
idealizar a vida bucólica do norte do país como alternativa de brasilidade.
problematizar a relação entre distância geográfica e construção da nacionalidade.
Resposta correta
D
questionar a participação da cultura autóctone na formação da identidade nacional.
E
propalar uma inquietação desfavorável quanto à aceitação das diferenças socioculturais.
Gabarito oficial: alternativa C

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar o poema Descobrimento, de Mário de Andrade, um dos principais autores da Primeira Geração Modernista. Essa fase do Modernismo brasileiro tinha como um de seus grandes objetivos a busca por uma identidade nacional mais autêntica, rompendo com o nacionalismo ufanista e idealizado do Romantismo.

No poema, o eu lírico encontra-se em um ambiente urbano e intelectualizado: está em sua casa em São Paulo, "abancado à escrivaninha", lendo um livro. De repente, é tomado por uma comoção ao se lembrar de uma realidade completamente diferente da sua: a de um homem no Norte do país, "pálido, magro", que trabalha na extração do látex ("fazer uma pele com a borracha do dia").

O título Descobrimento carrega uma forte ironia. O eu lírico "descobre" o próprio país não por meio de grandes navegações ou feitos heroicos, mas ao tomar consciência da existência de outro brasileiro, que vive uma realidade dura e distante da sua bolha paulistana. A frase final, "Esse homem é brasileiro que nem eu...", coroa essa reflexão.

Ao colocar lado a lado o intelectual do Sudeste e o seringueiro do Norte, Mário de Andrade evidencia a imensa distância geográfica, social e cultural que separa os habitantes do Brasil. O poema, portanto, problematiza como é possível construir uma identidade nacional única e coesa em um país marcado por realidades tão distantes e distintas.

Analisando as alternativas:

  • A está incorreta porque o poema não busca "referendar" (validar) estereótipos, mas gerar empatia e reconhecimento do outro como parte da mesma nação.
  • B está incorreta pois não há idealização bucólica; a descrição do homem "pálido, magro" remete a uma vida de trabalho árduo e sofrimento.
  • C é a correta, pois o texto reflete exatamente sobre o contraste entre a distância geográfica ("Muito longe de mim") e a ideia de pertencimento à mesma nação ("brasileiro que nem eu").
  • D está incorreta porque o foco não é a cultura autóctone (indígena), mas o trabalhador da borracha.
  • E está incorreta porque a inquietação do eu lírico não é "desfavorável" à aceitação das diferenças; pelo contrário, ele se comove e reconhece o outro como seu igual na brasilidade.

A resposta correta é a alternativa C.

Ainda com dúvida nesta questão?

Crie sua conta gratuita e peça ao Darwin, o tutor de IA do Alvo, para explicar do seu jeito — e treine questões como esta na sua trilha adaptativa.

Fonte: prova oficial do ENEM 2021 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.