Questão 15 do ENEM 2018Linguagens

ENEM 2018Linguagens1ª aplicação

Dia 20/10

É preciso não beber mais. Não é preciso sentir vontade de beber e não beber: é preciso não sentir vontade de beber. É preciso não dar de comer aos urubus. É preciso fechar para balanço e reabrir. É preciso não dar de comer aos urubus. Nem esperanças aos urubus. É preciso sacudir a poeira. É preciso poder beber sem se oferecer em holocausto. É preciso. É preciso não morrer por enquanto. É preciso sobreviver para verificar. Não pensar mais na solidão de Rogério, e deixá-lo. É preciso não dar de comer aos urubus. É preciso enquanto é tempo não morrer na via pública.

TORQUATO NETO. In: MENDONÇA, J. (Org.) Poesia (im)popular brasileira.
São Bernardo do Campo: Lamparina Luminosa, 2012.

O processo de construção do texto formata uma mensagem por ele dimensionada, uma vez que
A
configura o estreitamento da linguagem poética.
B
reflete as lacunas da lucidez em desconstrução.
C
projeta a persistência das emoções reprimidas.
repercute a consciência da agonia antecipada.
Resposta correta
E
revela a fragmentação das relações humanas.
Gabarito oficial: alternativa D

Resolução comentada

A chave desta questão está em relacionar a forma como o texto é construído com a mensagem que ele transmite. O texto de Torquato Neto se destaca pela repetição insistente da expressão "É preciso". Essa figura de linguagem, a anáfora, não está ali por acaso: cria um ritmo de urgência, quase um mantra, de alguém que tenta desesperadamente convencer a si mesmo.

Mas convencer-se de quê? Ao observarmos os complementos da expressão ("não beber mais", "não dar de comer aos urubus", "não morrer por enquanto", "sobreviver para verificar"), percebemos que o eu lírico trava uma luta interna pela própria sobrevivência. A menção aos "urubus" remete à morte e à decomposição, sugerindo que ele sente a proximidade do fim e tenta adiá-lo.

Essa repetição obsessiva revela uma clareza dolorosa do eu lírico sobre o próprio estado. Ele não está perdendo a lucidez — pelo contrário, tem a consciência aguda de sua agonia e da iminência da morte. Trata-se de uma agonia antecipada: ele sabe o que o aguarda caso ceda aos seus impulsos, e o texto é a materialização dessa resistência.

Analisando as demais alternativas:

  • A alternativa A está incorreta porque a repetição não "estreita" a linguagem poética, mas a intensifica, conferindo-lhe tom dramático.
  • A alternativa B fala em perda de lucidez, mas o texto mostra o oposto: uma lucidez cortante e uma tentativa consciente de impor regras a si mesmo.
  • A alternativa C menciona "emoções reprimidas", quando o texto é justamente a expressão crua e direta dessas emoções.
  • A alternativa E foca na "fragmentação das relações humanas", o que foge do tema central: a luta íntima e individual pela sobrevivência.

Portanto, a estrutura repetitiva e angustiante do texto repercute a consciência de uma agonia que o eu lírico sente se aproximar, o que confirma a alternativa D.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2018 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.