Questão 125 do ENEM 2011Linguagens

ENEM 2011Linguagens2ª aplicação

Diz-se, em termos gerais, que é preciso “falar a mesma língua”: o português, por exemplo, que é a língua que utilizamos. Mas trata-se de uma língua portuguesa ou de várias línguas portuguesas? O português da Bahia é o mesmo português do Rio Grande do Sul? Não está cada um deles sujeito a influências diferentes ― linguísticas, climáticas, ambientais? O português do médico é igual ao do seu cliente? O ambiente social e o cultural não determinam a língua? Estas questões levam à constatação de que existem níveis de linguagem. O vocabulário, a sintaxe e mesmo a pronúncia variam segundo esses níveis.

VANOYE, F. Usos da linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1981 (fragmento).

Na fala e na escrita, são observadas variações de uso, motivadas pela classe social do indivíduo, por sua região, por seu grau de escolaridade, pelo gênero, pela intencionalidade do ato comunicativo, ou seja, pelas situações linguísticas e sociais em que a linguagem é empregada. A variedade linguística adequada à situação específica de uso social está expressa
A
na fala de um professor ao iniciar a aula no ensino superior: “Fala galerinha do mal! Hoje vamos estudar um negócio muito importante”.
B
na leitura de um discurso de uma autoridade pública na inauguração de um estabelecimento educacional: “Senhores cidadões do Brasil, com alegria, inauguramos mais uma escola para a melhor educação de nosso país”.
C
no memorando da diretora da escola ao responsável por um aluno: “Responsável pelo aluno Henrique, dê uma chegadinha na diretoria da escola para saber o que o seu filhinho anda fazendo de besteira”.
na fala de uma criança, na tentativa de convencer a mãe a entregar-lhe a mesada: “Mãe, assim não dá para ser feliz! Dá pra liberar minha mesada? Prometo que só vou tirar notão nas próximas provas”.
Resposta correta
E
na fala de uma mãe em resposta ao filho que solicitou a mesada: “Caro descendente, por obséquio, antecipe a prestação de suas contas, a fim de fazer jus ao solicitado”.
Gabarito oficial: alternativa D

Resolução comentada

A questão aborda um dos temas mais clássicos do ENEM: a variação linguística e, mais especificamente, a adequação linguística. O texto de apoio nos lembra que a língua não é única e imutável; ela muda dependendo de quem fala, com quem se fala e onde se fala. O comando da questão pede exatamente que a gente encontre a alternativa em que a linguagem escolhida pelo falante "combina" perfeitamente com a situação social em que ele se encontra.

O Conceito de Adequação Linguística

Pense na linguagem como se fosse uma roupa. Você não vai à praia de terno e gravata, nem vai a um casamento de roupa de banho. Com a língua, funciona da mesma forma. Não existe, do ponto de vista da comunicação, um falar "certo" ou "errado" em termos absolutos, mas sim um falar adequado ou inadequado ao contexto.

Situações formais (como discursos públicos, documentos oficiais e aulas universitárias) exigem o uso da norma-padrão e um vocabulário mais sério. Já situações informais (como conversas com amigos e familiares no dia a dia) permitem o uso de gírias, expressões coloquiais e maior espontaneidade.

Análise das Situações

Vamos analisar cada cenário proposto nas alternativas para ver se a linguagem se adequa ao contexto:

  • Alternativa A: Um professor iniciando uma aula no ensino superior está em um ambiente acadêmico, que exige certa formalidade e distanciamento profissional. Chegar dizendo "Fala galerinha do mal!" e "um negócio muito importante" é excessivamente informal para o contexto.
  • Alternativa B: Uma autoridade pública inaugurando uma escola está em uma situação de alta formalidade, que exige o domínio rigoroso da norma-padrão. O uso de "cidadões" (quando o correto é "cidadãos") demonstra um desvio gramatical inadequado para a seriedade e a exigência do discurso.
  • Alternativa C: Um memorando é um documento oficial de comunicação institucional. A diretora usar expressões como "dê uma chegadinha", "filhinho" e "fazendo de besteira" quebra totalmente a formalidade e a objetividade exigidas por esse gênero textual.
  • Alternativa E: Uma mãe respondendo ao filho em casa está em um ambiente íntimo e familiar. Chamar o filho de "Caro descendente" e pedir "por obséquio" que ele "antecipe a prestação de suas contas" é usar uma linguagem hiperformal e rebuscada em um contexto que pede coloquialidade. Soa extremamente artificial e inadequado para uma conversa cotidiana.
  • Alternativa D: Aqui temos uma criança tentando convencer a mãe a dar a mesada. O ambiente é o lar, e a relação é de intimidade familiar. O uso de expressões coloquiais, persuasivas e afetivas como "assim não dá para ser feliz!", "Dá pra liberar" e "notão" encaixa-se perfeitamente na situação comunicativa. É a linguagem natural e esperada para esse contexto.

Portanto, a única situação em que há total harmonia entre o nível de linguagem utilizado e o contexto social da comunicação é a da fala da criança com a mãe.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2011 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.