Questão 59 do ENEM 2023Ciências Humanas

ENEM 2023Ciências Humanas1ª aplicação

Do século XVI em diante, pelo menos nas classes mais altas, o garfo passou a ser usado como utensílio para comer, chegando através da Itália primeiramente à França e, em seguida, à Inglaterra e à Alemanha, depois de ter servido, durante algum tempo, apenas para retirar alimentos sólidos da travessa. Henrique III introduziu-o na França, trazendo-o provavelmente de Veneza. Seus cortesãos não foram pouco ridicularizados por essa maneira “afetada” de comer e, no princípio, não eram muito hábeis no uso do utensílio: pelo menos se dizia que metade da comida cala do garfo no caminho do prato à boca. Em data tão recente como o século XVII, o garfo era ainda basicamente artigo de luxo, geralmente feito de prata ou ouro.

ELIAS. N. O processo civilizador: uma história dos costumes. Rio de Janeiro: Zahar, 1994.

O processo social relatado indica a formação de uma etiqueta que tem como principio a
distinção das classes sociais.
Resposta correta
B
valorização de habitos de higiene.
C
exaltação da cultura mediterrânea.
D
consagração de tradições medievais.
E
disseminação de produtos manufaturados.
Gabarito oficial: alternativa A

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar com atenção o texto de Norbert Elias, um importante sociólogo que estudou como os costumes e as regras de etiqueta se transformaram ao longo do tempo, no que ele chamou de "processo civilizador".

Logo no início, o texto destaca que o uso do garfo começou "pelo menos nas classes mais altas". Mais adiante, menciona que o utensílio era visto como uma maneira "afetada" de comer e que, mesmo no século XVII, ainda era considerado um "artigo de luxo, geralmente feito de prata ou ouro".

Essas informações são fundamentais para entendermos o papel da etiqueta na sociedade da época. A adoção de novos modos à mesa, como o uso do garfo, não surgiu inicialmente por uma preocupação com a higiene ou com a saúde, mas sim como uma forma de distinção social. A nobreza e as classes mais abastadas adotavam comportamentos, roupas e utensílios refinados e de difícil acesso (como um garfo de ouro ou prata) justamente para se diferenciarem das classes populares, que continuavam comendo com as mãos ou com colheres de madeira.

Vamos analisar as alternativas para confirmar nosso raciocínio:

  • A) distinção das classes sociais. Correta. Como vimos, a etiqueta servia como uma barreira simbólica, separando a elite (que dominava os modos "civilizados" e possuía artigos de luxo) do restante da população.
  • B) valorização de hábitos de higiene. Incorreta. Embora hoje associemos o garfo à higiene, o texto deixa claro que, na época, a motivação era o luxo e a afetação, não a limpeza.
  • C) exaltação da cultura mediterrânea. Incorreta. O fato de o garfo ter vindo da Itália é apenas um detalhe histórico de sua difusão, não o princípio que motivou a formação da etiqueta.
  • D) consagração de tradições medievais. Incorreta. O uso do garfo a partir do século XVI representa justamente uma ruptura com os costumes medievais anteriores, onde o uso das mãos era comum em todas as classes.
  • E) disseminação de produtos manufaturados. Incorreta. O garfo era um artigo de luxo, feito de metais preciosos, e não um produto manufaturado disseminado em massa para toda a população.

Portanto, o processo social relatado indica a formação de uma etiqueta baseada na distinção entre as classes.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2023 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.