Questão 68 do ENEM 2020Ciências Humanas

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É certo que entramos na era das sociedades de “controle”. Elas já não são exatamente sociedades disciplinares, cuja técnica principal é o confinamento (não somente o hospital e a prisão, mas também a escola, a fábrica, o quartel). A sociedade de controle não funciona por confinamento, mas por controle contínuo e comunicação instantânea. É evidente que não deixamos de falar de prisão, de escola, de hospital: mas essas instituições estão em crise.

DELEUZE, G. Entrevista a Toni Negri. In: O devir revolucionário e as criações políticas.

Novos Estudos Cebrap, n. 28, out. 1990 (adaptado). No trecho, ao problematizar as sociedades contemporâneas, Gilles Deleuze está enfatizando a ausência de
A
legitimidade nas redes de informação.
autonomia nas ações individuais.
Resposta correta
C
sanções no ordenamento jurídico.
D
padrões na sociedade de consumo.
E
inovações nos sistemas educacionais.
Gabarito oficial: alternativa B

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar o conceito de sociedade de controle, proposto pelo filósofo Gilles Deleuze, em contraste com a sociedade disciplinar, estudada por Michel Foucault.

O texto-base nos mostra que as sociedades disciplinares operavam por meio do confinamento físico. Ou seja, o controle sobre os indivíduos era exercido em espaços fechados e delimitados, como a escola, a fábrica, o hospital e a prisão. Quando a pessoa saía desses espaços, ela teoricamente deixava de estar sob a vigilância direta daquela instituição.

No entanto, Deleuze aponta que entramos na era das sociedades de controle. Nessa nova configuração, o controle não depende mais de prender as pessoas em espaços físicos. Ele ocorre de forma contínua e por meio da comunicação instantânea. Pense, por exemplo, no uso de smartphones, redes sociais, algoritmos, cartões de crédito e câmeras de segurança: nós somos monitorados, rastreados e influenciados o tempo todo, em qualquer lugar, sem precisarmos estar trancados em uma instituição.

Ao problematizar essa sociedade contemporânea, Deleuze enfatiza que esse controle contínuo e invisível afeta diretamente a nossa liberdade. Se nossos desejos, consumos, opiniões e comportamentos são constantemente mapeados, induzidos e vigiados por mecanismos tecnológicos e de comunicação, o que se perde é a autonomia nas ações individuais. O indivíduo acredita ser livre por não estar confinado, mas, na verdade, está preso em uma rede de controle invisível e ininterrupta.

Analisando as outras alternativas:

  • A está incorreta porque o problema não é a falta de legitimidade das redes, mas sim o excesso de controle que elas exercem.
  • C está incorreta, pois as sanções jurídicas continuam existindo; o que muda é a forma de vigilância.
  • D está incorreta, já que a sociedade de consumo é justamente baseada na criação e imposição de padrões, não na ausência deles.
  • E está incorreta, pois, embora o texto cite que a escola está em crise, o foco da crítica de Deleuze é o controle sobre o indivíduo, e não a falta de inovações educacionais.

Portanto, a alternativa correta é a que aponta a perda da autonomia do indivíduo frente a esse controle contínuo.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2020 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.