Questão 129 do ENEM 2012Linguagens

ENEM 2012Linguagens2ª aplicação

— É o diabo!… praguejava entre dentes o brutalhão, enquanto atravessava o corredor ao lado do Conselheiro, enfiando às pressas o seu inseparável sobretudo de casimira alvadia. — É o diabo! Esta menina já devia ter casado!

— Disso sei eu… balbuciou o outro. — E não é por falta de esforços de minha parte; creia!

— Diabo! Faz lástima que um organismo tão rico e tão bom para procriar, se sacrifique desse modo! Enfim — ainda não é tarde; mas, se ela não se casar quanto antes — hum… hum!… Não respondo pelo resto!

— Então o Doutor acha que…?

Lobão inflamou-se: Oh! o Conselheiro não podia imaginar o que eram aqueles temperamentozinhos impressionáveis!… eram terríveis, eram violentos, quando alguém tentava contrariá-los! Não pediam — exigiam — reclamavam!

AZEVEDO, A. O homem. Belo Horizonte: UFMG, 2003 (fragmento).

O romance O homem, de Aluísio Azevedo, insere-se no contexto do Naturalismo, marcado pela visão do cientificismo. No fragmento, essa concepção aplicada à mulher define-se por uma
A
conivência com relação à rejeição feminina de assumir um casamento arranjado pelo pai.
B
caracterização da personagem feminina como um estereótipo da mulher sensual e misteriosa.
convicção de que a mulher é um organismo frágil e condicionado por seu ciclo reprodutivo.
Resposta correta
D
submissão da personagem feminina a um processo que a infantiliza e limita intelectualmente.
E
incapacidade de resistir às pressões socialmente impostas, representadas pelo pai e pelo médico.
Gabarito oficial: alternativa C

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar o fragmento do romance O homem, de Aluísio Azevedo, à luz das características do Naturalismo, movimento literário do final do século XIX.

O Naturalismo foi fortemente influenciado pelo cientificismo e pelo determinismo biológico. Nessa visão de mundo, o ser humano não é visto como um indivíduo complexo e dotado de livre-arbítrio, mas sim como um animal, um produto do meio social, da hereditariedade (raça) e do momento histórico. O comportamento humano, portanto, seria ditado por instintos, impulsos fisiológicos e leis biológicas.

Análise do Fragmento

No diálogo apresentado, observamos uma conversa entre o pai da moça e o médico, Dr. Lobão. A linguagem utilizada pelo médico é fundamental para entendermos a concepção naturalista aplicada à mulher:

  • "um organismo tão rico e tão bom para procriar": A mulher é desumanizada e reduzida à sua dimensão puramente biológica. Ela não é tratada como uma pessoa com sentimentos ou desejos próprios, mas como um "organismo" cuja função natural e primordial é a reprodução.
  • "temperamentozinhos impressionáveis" e comportamentos "terríveis" e "violentos": O médico patologiza o comportamento da jovem. Na visão cientificista da época, as emoções e as crises nervosas femininas (frequentemente rotuladas como "histeria") eram explicadas como consequências de um desequilíbrio biológico causado pela não realização de sua função reprodutiva (o casamento e a procriação).

Avaliação das Alternativas

Com base nessa interpretação, vamos analisar as alternativas:

  • A) Incorreta. O texto não mostra conivência com a rejeição da mulher ao casamento. Pelo contrário, os homens estão preocupados e veem o casamento como uma necessidade urgente para "curar" a jovem.
  • B) Incorreta. A imagem da mulher sensual e misteriosa (a femme fatale) é uma característica mais associada ao Romantismo ou ao Simbolismo. No Naturalismo, a mulher é analisada de forma crua, como um corpo biológico.
  • C) Correta. O fragmento ilustra perfeitamente a convicção determinista de que a mulher é um ser frágil (com "temperamentozinhos impressionáveis") e totalmente condicionada por sua fisiologia e seu ciclo reprodutivo (um "organismo" feito para "procriar").
  • D) Incorreta. Embora o uso do diminutivo ("temperamentozinhos") denote uma atitude que infantiliza a mulher, o comando da questão pede especificamente a definição da concepção cientificista. A infantilização é uma consequência social dessa visão, mas a base científica (o cerne da ideologia naturalista) é a redução da mulher à sua biologia, o que torna a alternativa C mais precisa e completa.
  • E) Incorreta. O texto sugere que a jovem está, de certa forma, resistindo ou reagindo (com comportamentos "violentos" quando contrariada), e não que ela é incapaz de resistir.

Portanto, a visão naturalista e cientificista presente no texto define a mulher a partir de seu determinismo biológico reprodutivo.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2012 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.