Questão 46 do ENEM 2019Ciências Humanas

ENEM 2019Ciências HumanasPPL

Eis o ensinamento de minha doutrina: “Viva de forma a ter de desejar reviver — é o dever —, pois, em todo caso, você reviverá! Aquele que ama antes de tudo se submeter, obedecer e seguir, que obedeça! Mas que saiba para o que dirige sua preferência, e não recue diante de nenhum meio! É a eternidade que está em jogo!”.

NIETZSCHE apud FERRY, L. Aprender a viver: filosofia para os novos tempos. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010 (adaptado).

O trecho contém uma formulação da doutrina nietzscheana do eterno retorno, que apresenta critérios radicais de avaliação da
qualidade de nossa existência pessoal e coletiva.
Resposta correta
B
conveniência do cuidado da saúde física e espiritual.
C
legitimidade da doutrina pagã da transmigração da alma.
D
veracidade do postulado cosmológico da perenidade do mundo.
E
validade de padrões habituais de ação humana ao longo da história.
Gabarito oficial: alternativa A

Resolução comentada

A questão aborda um dos conceitos mais centrais e fascinantes da filosofia de Friedrich Nietzsche: o eterno retorno. Para compreendermos o que a questão pede, precisamos entender o que esse conceito significa na prática para o filósofo.

O eterno retorno não é necessariamente uma teoria física sobre o universo, mas sim um experimento de pensamento ético e existencial. Nietzsche nos convida a imaginar a seguinte situação: e se um demônio lhe dissesse que a vida que você vive agora, com cada dor, cada alegria, cada pensamento e cada suspiro, se repetirá infinitamente, exatamente da mesma forma, por toda a eternidade?

Diante dessa ideia, a reação de uma pessoa revela a sua postura diante da vida. Se a ideia de reviver tudo infinitamente causa desespero, isso significa que a pessoa não está vivendo de forma plena ou afirmativa. Por outro lado, se a pessoa abraça essa ideia com alegria, desejando que cada momento se repita, ela atingiu o que Nietzsche chama de Amor Fati (amor ao destino). É a afirmação máxima da vida.

Voltando ao texto do enunciado, lemos: "Viva de forma a ter de desejar reviver — é o dever —, pois, em todo caso, você reviverá!". Aqui, fica claro que o eterno retorno funciona como um critério radical de avaliação. Mas avaliação do quê? Da qualidade da nossa existência. Ele nos força a medir o peso de nossas escolhas e ações, questionando se a vida que estamos construindo (tanto no âmbito pessoal quanto no coletivo) é digna de ser vivida pela eternidade.

Analisando as alternativas:

  • A) qualidade de nossa existência pessoal e coletiva. Correta. O eterno retorno é a régua pela qual medimos se estamos vivendo uma vida afirmativa, potente e autêntica.
  • B) conveniência do cuidado da saúde física e espiritual. Incorreta. A filosofia nietzschiana não se foca em preceitos de saúde física ou espiritual nos moldes tradicionais ou religiosos.
  • C) legitimidade da doutrina pagã da transmigração da alma. Incorreta. O eterno retorno não tem relação com reencarnação ou evolução espiritual (transmigração da alma), pois é a mesma vida que se repete, sem um "além".
  • D) veracidade do postulado cosmológico da perenidade do mundo. Incorreta. Embora o eterno retorno possa flertar com a cosmologia, o trecho e o comando da questão focam no seu aspecto de avaliação da vida humana, e não na comprovação científica do universo.
  • E) validade de padrões habituais de ação humana ao longo da história. Incorreta. Nietzsche é um crítico feroz dos padrões habituais (a moral de rebanho). O eterno retorno busca justamente romper com o automatismo e a mediocridade, não validá-los.

Portanto, a doutrina do eterno retorno é um convite para avaliarmos a qualidade da nossa própria existência.

Ainda com dúvida nesta questão?

Crie sua conta gratuita e peça ao Darwin, o tutor de IA do Alvo, para explicar do seu jeito — e treine questões como esta na sua trilha adaptativa.

Fonte: prova oficial do ENEM 2019 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.