Questão 72 do ENEM 2016Ciências Humanas

ENEM 2016Ciências Humanas1ª aplicação

Em 1935, o governo brasileiro começou a negar vistos a judeus. Posteriormente, durante o Estado Novo, uma circular secreta proibiu a concessão de vistos a “pessoas de origem semita”, inclusive turistas e negociantes, o que causou uma queda de 75% da imigração judaica ao longo daquele ano. Entretanto, mesmo com as imposições da lei, muitos judeus continuaram entrando ilegalmente no país durante a guerra e as ameaças de deportação em massa nunca foram concretizadas, apesar da extradição de alguns indivíduos por sua militância política.

GRIMBERG, K. Nova língua interior. 500 anos de história dos judeus no Brasil. In: IBGE, Brasil: 500 anos de povoamento. Rio de Janeiro: IBGE, 2000 (adaptado).

Uma razão para a adoção da política de imigração mencionada no texto foi o(a)
A
receio do controle sionista sobre a economia nacional.
B
reserva de postos de trabalho para a mão de obra local.
C
oposição do clero católico à expansão de novas religiões.
D
apoio da diplomacia varguista às opiniões dos líderes árabes.
simpatia de membros da burocracia pelo projeto totalitário alemão.
Resposta correta
Gabarito oficial: alternativa E

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos nos situar no contexto histórico do Brasil durante a Era Vargas, mais especificamente no período do Estado Novo (1937-1945). Esse foi um regime ditatorial comandado por Getúlio Vargas, caracterizado por forte centralização política, nacionalismo exacerbado, anticomunismo e censura.

Durante os anos que antecederam a Segunda Guerra Mundial e no início do conflito, o governo brasileiro manteve uma postura de neutralidade pragmática, flertando tanto com os Estados Unidos quanto com a Alemanha nazista. No entanto, internamente, o Estado Novo tinha uma forte inspiração em regimes totalitários europeus, como o fascismo italiano e o nazismo alemão.

Dentro da burocracia estatal brasileira — especialmente no Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) e na polícia política, chefiada por Filinto Müller —, havia figuras com declarada simpatia pelo projeto totalitário de Adolf Hitler. Essa afinidade ideológica refletiu-se diretamente nas políticas de imigração do país. O governo passou a emitir circulares secretas que restringiam ou proibiam a concessão de vistos a judeus, alinhando-se, de certa forma, ao antissemitismo propagado pela Alemanha nazista e ao ideal de "branqueamento" e homogeneização cultural da população brasileira.

Vamos analisar as alternativas para entender por que as outras estão incorretas:

  • Alternativa A: Incorreta. Embora existissem preconceitos econômicos contra judeus, a política de Estado não foi motivada por um "receio de controle sionista", mas sim por um alinhamento ideológico de setores do governo com o nazifascismo.
  • Alternativa B: Incorreta. O governo Vargas de fato criou leis para proteger o trabalhador nacional (como a Lei dos 2/32/3), mas o texto destaca a proibição de vistos até mesmo para "turistas e negociantes" judeus, o que mostra que a motivação ia muito além da reserva de mercado de trabalho.
  • Alternativa C: Incorreta. A Igreja Católica tinha grande influência no Brasil, mas a restrição imigratória aos judeus foi uma decisão política e ideológica do Estado, não uma demanda do clero contra a expansão de novas religiões.
  • Alternativa D: Incorreta. A diplomacia varguista não tinha como pauta o apoio a líderes árabes; suas relações internacionais focavam-se nas potências europeias e nos Estados Unidos.
  • Alternativa E: Correta. A restrição à entrada de judeus no Brasil durante o Estado Novo foi impulsionada pela simpatia de membros da alta burocracia do governo Vargas (como diplomatas e chefes de polícia) pelo regime nazista alemão e suas políticas de exclusão.

Portanto, a razão para a adoção dessa política imigratória restritiva foi a influência e a simpatia de setores do governo brasileiro pelo totalitarismo europeu.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2016 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.