Questão 130 do ENEM 2014Linguagens

ENEM 2014Linguagens3ª aplicação

Em todas as datas cívicas a máquina é agora uma parte importante das festividades. Você se lembra que antigamente os feriados eram comemorados no coreto ou no campo de futebol, mas hoje tudo se passa ao pé da máquina. Em tempo de eleição todos os candidatos querem fazer seus comícios à sombra dela, e como isso não é possível, alguém tem de sobrar, nem todos se conformam e sempre surgem conflitos. Felizmente a máquina ainda não foi danificada nesses esparramos, e espero que não seja.

A única pessoa que ainda não rendeu homenagem à máquina é o vigário, mas você sabe como ele é ranzinza, e hoje mais ainda, com a idade. Em todo caso, ainda não tentou nada contra ela, e ai dele. Enquanto ficar nas censuras veladas, vamos tolerando; é um direito que ele tem.

VEIGA, J. J. A máquina extraviada. In: MORICONI, I. Os cem melhores contos brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000 (fragmento).

A presença do inusitado ou do fantástico na vida cotidiana é frequente na obra de José J. Veiga. No fragmento, a situação de singularidade experimentada pelas personagens constrói-se a partir do
A
afastamento da religião tradicional.
B
medo crescente diante da tecnologia.
C
desrespeito político em âmbito municipal.
impacto sociocultural das inovações.
Resposta correta
E
conflito entre diferentes classes sociais.
Gabarito oficial: alternativa D

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar o fragmento do conto A máquina extraviada, de José J. Veiga, e entender como o autor constrói a sensação de algo inusitado ou fantástico no cotidiano daquela comunidade.

Logo no início do texto, o narrador relata uma mudança significativa nos costumes locais: "antigamente os feriados eram comemorados no coreto ou no campo de futebol, mas hoje tudo se passa ao pé da máquina". Além disso, a máquina passou a ser o local disputado por políticos para a realização de comícios, gerando até conflitos por espaço. A única figura que resiste a essa nova adoração é o vigário, representante das tradições antigas.

Essa "máquina" misteriosa, que não tem sua função prática revelada, atua como um elemento novo e desconhecido que altera completamente a dinâmica da cidade. A singularidade e o tom fantástico do texto nascem justamente da forma como a população reage a essa novidade: em vez de estranhamento ou medo, há um fascínio quase religioso. A máquina reconfigura os espaços de convivência, as festividades e até a política local.

Analisando as alternativas:

  • A) afastamento da religião tradicional: Embora o vigário seja citado como o único que não se rendeu à máquina, o foco do texto não é o abandono da religião, mas sim a centralidade que a máquina ganhou.
  • B) medo crescente diante da tecnologia: O texto mostra o oposto de medo; a população está fascinada e quer estar perto da máquina.
  • C) desrespeito político em âmbito municipal: Os conflitos políticos são apenas uma consequência do desejo de todos estarem perto da máquina, não o tema central.
  • D) impacto sociocultural das inovações: Correta. A máquina representa uma inovação (tecnológica ou não) que causou um profundo impacto na cultura (festividades) e na sociedade (comícios, convivência) daquela comunidade.
  • E) conflito entre diferentes classes sociais: O texto não aborda divisões de classe, mas sim o comportamento geral da população em relação à máquina.

Portanto, a situação de singularidade constrói-se a partir do impacto sociocultural que essa inovação (a máquina) provocou na vida da cidade.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2014 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.