Questão 55 do ENEM 2019Ciências Humanas

ENEM 2019Ciências Humanas1ª aplicação

Entre os combatentes estava a mais famosa heroína da Independência. Nascida em Feira de Santana, filha de lavradores pobres, Maria Quitéria de Jesus tinha trinta anos quando a Bahia começou a pegar em armas contra os portugueses. Apesar da proibição de mulheres nos batalhões de voluntários, decidiu se alistar às escondidas. Cortou os cabelos, amarrou os seios, vestiu-se de homem e incorporou-se às fileiras brasileiras com o nome de Soldado Medeiros.

GOMES, L. 1822. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010.

No processo de Independência do Brasil, o caso mencionado é emblemático porque evidencia a
rigidez hierárquica da estrutura social.
Resposta correta
B
inserção feminina nos ofícios militares.
C
adesão pública dos imigrantes portugueses.
D
flexibilidade administrativa do governo imperial.
E
receptividade metropolitana aos ideais emancipatórios.
Gabarito oficial: alternativa A

Resolução comentada

A Sociedade Patriarcal e o Caso de Maria Quitéria

A questão exige que interpretemos o significado sociológico e histórico por trás da atitude de Maria Quitéria durante as lutas pela Independência do Brasil na Bahia. O texto nos conta que, para lutar, ela precisou cortar os cabelos, amarrar os seios e adotar uma identidade masculina, passando a ser chamada de Soldado Medeiros. O que isso nos diz sobre a sociedade da época?

No Brasil do século XIX, a sociedade era profundamente patriarcal. Os papéis de gênero eram muito bem definidos e separados em espaços fechados: o espaço público, a política e as forças armadas eram ambientes exclusivamente masculinos, enquanto às mulheres era reservado o espaço privado e doméstico.

Ao analisarmos o texto, o trecho "Apesar da proibição de mulheres nos batalhões" deixa claro que havia uma regra estrita. O fato de Maria Quitéria ter que se disfarçar de homem para conseguir se alistar não demonstra que o exército passou a aceitar mulheres, mas sim o exato oposto: a regra era tão dura e inflexível que a única forma de uma mulher participar da vida militar era deixando de ser vista socialmente como mulher.

Análise das Alternativas

A) rigidez hierárquica da estrutura social. Correta. A necessidade de assumir uma identidade masculina para acessar um espaço de combate evidencia que a sociedade era extremamente rígida em suas hierarquias e papéis de gênero. O sistema não aceitava mulheres como soldados, colocando o homem no topo dessa hierarquia pública.

B) inserção feminina nos ofícios militares. Incorreta. O caso de Maria Quitéria foi uma exceção extraordinária e, inicialmente, clandestina. Não houve uma política oficial de inserção feminina nas Forças Armadas na época; isso só ocorreria de forma ampla muito tempo depois.

C) adesão pública dos imigrantes portugueses. Incorreta. O texto relata a história de uma brasileira lutando contra as tropas portuguesas. Não há relação com a adesão de imigrantes portugueses à causa da independência, muito menos com a questão de gênero abordada.

D) flexibilidade administrativa do governo imperial. Incorreta. Se houvesse flexibilidade, Maria Quitéria poderia ter se alistado com seu próprio nome e identidade feminina. A obrigatoriedade do disfarce é a prova máxima da inflexibilidade da administração militar.

E) receptividade metropolitana aos ideais emancipatórios. Incorreta. A "metrópole" era Portugal, que enviou tropas exatamente para reprimir e impedir a emancipação (independência) do Brasil, o que gerou os conflitos armados na Bahia. Além disso, a alternativa foge totalmente do tema central do texto.

Portanto, a atitude de Maria Quitéria é emblemática porque escancara as barreiras impostas às mulheres em uma estrutura social rígida e patriarcal.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2019 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.