Questão 26 do ENEM 2016Linguagens

ENEM 2016Linguagens2ª aplicação

Esaú e Jacó

 

Ora, aí está justamente a epígrafe do livro, se eu lhe quisesse pôr alguma, e não me ocorresse outra. Não é somente um meio de completar as pessoas da narração com as ideias que deixarem, mas ainda um par de Lunetas para que o leitor do Iivro penetre o que for menos claro ou totalmente escuro.
Por outro lado, há proveito em irem as pessoas da minha história colaborando nela, ajudando o autor, por uma Iei de solidariedade, espécie de troca de serviços, entre o enxadrista e os seus trabalhos.
Se aceitas a comparação, distinguirás o rei e a dama, o bispo e o cavalo, sem que o cavalo possa fazer de torre, nem a torre de peão. Há ainda a diferença da cor, branca e preta, mas esta não tira o poder da marcha de cada peça, e afinal umas e outras podem ganhar a partida, e assim vai o mundo.

ASSIS, M. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1964 (fragmento).

O fragmento do romance Esaú e Jacó mostra como o narrador concebe a leitura de um texto literário. Com base nesse trecho, tal leitura deve levar em conta
o leitor como peça fundamental na construção dos sentidos.
Resposta correta
B
a luneta como objeto que permite ler melhor.
C
o autor como único criador de significados.
D
o caráter de entretenimento da literatura.
E
a solidariedade de outros autores.
Gabarito oficial: alternativa A

Resolução comentada

Para resolvermos essa questão, precisamos analisar com cuidado o fragmento do romance Esaú e Jacó, de Machado de Assis, e entender a visão do narrador sobre o papel da leitura e do leitor.

No trecho, o narrador utiliza metáforas para explicar como a narrativa funciona. Ele menciona que a epígrafe (ou as ideias deixadas pelas personagens) serve como "um par de Lunetas para que o leitor do livro penetre o que for menos claro ou totalmente escuro". Aqui, a "luneta" não é um objeto físico real, mas uma metáfora para a capacidade de interpretação. O narrador está dizendo que o texto literário possui lacunas, partes "menos claras" ou "escuras", e que cabe ao leitor usar sua percepção para desvendar esses significados.

Além disso, o texto fala sobre uma "lei de solidariedade" e uma "troca de serviços", comparando a literatura a um jogo de xadrez. Nessa visão machadiana, a obra literária não é um produto fechado e finalizado apenas pelo autor. Pelo contrário, ela exige uma colaboração ativa. O leitor não é um mero receptor passivo; ele é convidado a participar do jogo, preenchendo as entrelinhas e construindo os sentidos da obra junto com o autor.

Analisando as alternativas:

  • A) o leitor como peça fundamental na construção dos sentidos. Correta. O fragmento deixa claro que o leitor precisa "penetrar" no que está escuro, ou seja, interpretar e dar sentido ao texto, atuando como um colaborador ativo.
  • B) a luneta como objeto que permite ler melhor. Incorreta. A alternativa faz uma leitura literal da palavra "luneta", ignorando o sentido figurado (metafórico) empregado pelo autor.
  • C) o autor como único criador de significados. Incorreta. O texto afirma exatamente o oposto ao propor uma "troca de serviços" e a necessidade de o leitor desvendar o que não está totalmente claro.
  • D) o caráter de entretenimento da literatura. Incorreta. Embora a literatura possa entreter, o foco do fragmento é a metalinguagem e a teoria da recepção (o papel do leitor), não o entretenimento.
  • E) a solidariedade de outros autores. Incorreta. A solidariedade mencionada no texto ocorre entre o autor, as personagens ("pessoas da minha história") e o leitor, não envolvendo outros autores.

Portanto, a leitura de um texto literário, segundo o narrador, depende da participação ativa do leitor para que a obra ganhe seu sentido completo.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2016 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.