Questão 30 do ENEM 2016Linguagens

ENEM 2016Linguagens1ª aplicação

Esses chopes dourados

[…]
quando a geração de meu pai
batia na minha
a minha achava que era normal
que a geração de cima
só podia educar a de baixo
batendo

quando a minha geração batia na de vocês
ainda não sabia que estava errado
mas a geração de vocês já sabia
e cresceu odiando a geração de cima

aí chegou esta hora
em que todas as gerações já sabem de tudo
e é péssimo
ter pertencido à geração do meio
tendo errado quando apanhou da de cima
e errado quando bateu na de baixo

e sabendo que apesar de amaldiçoados
éramos todos inocentes.

WANDERLEY, J. In: MORICONI, II (Org.). Os cem melhores poemas brasileiros do século, Rio de Janeiro: Objetiva, 2001 (fragmento)

Ao expressar uma percepção de atitudes e valores situados na passagem do tempo, o eu lírico manifesta uma angústia sintetizada na
A
compreensão da efemeridade das convicções antes vistas como sólidas.
consciência das imperfeições aceitas na construção do senso comum.
Resposta correta
C
revolta das novas gerações contra modelos tradicionais de educação.
D
incerteza da expectativa de mudança por parte das futuras gerações.
E
crueldade atribuída à forma de punição praticada pelos mais velhos.
Gabarito oficial: alternativa B

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar cuidadosamente o desabafo do eu lírico no poema e identificar a origem de sua angústia.

O poema descreve a relação entre três gerações diferentes e a forma como a educação, especificamente o ato de bater, era encarada por cada uma delas. O eu lírico se coloca na "geração do meio": ele apanhou da geração de seu pai (que considerava isso normal) e bateu na geração de seus filhos (quando a geração dele ainda não sabia que isso era errado, mas os filhos já sabiam).

A angústia do eu lírico atinge o ápice no final do fragmento, quando ele percebe que errou tanto ao apanhar quanto ao bater. No entanto, ele conclui com a reflexão: "sabendo que apesar de amaldiçoados éramos todos inocentes". Essa inocência se deve ao fato de que a violência física na educação era uma prática normalizada, ou seja, fazia parte do senso comum da época. As pessoas reproduziam esse comportamento sem questionar, acreditando ser o método correto de ensino.

Vamos analisar as alternativas para encontrar a que melhor sintetiza essa ideia:

  • Alternativa A: Incorreta. O poema não foca na rapidez com que as convicções mudam (efemeridade), mas sim no peso de ter reproduzido um erro que era considerado normal.
  • Alternativa B: Correta. A angústia do eu lírico nasce exatamente da consciência de que atitudes erradas (imperfeições, como a violência na educação) foram aceitas e praticadas naturalmente porque faziam parte da construção do senso comum daquela época.
  • Alternativa C: Incorreta. Embora o poema mencione que a nova geração "cresceu odiando a geração de cima", a angústia do eu lírico não se resume a essa revolta, mas à sua própria culpa e à constatação de que todos foram vítimas de um sistema de crenças.
  • Alternativa D: Incorreta. O texto é uma reflexão sobre o passado e o presente, não trazendo questionamentos ou incertezas sobre o que as futuras gerações farão.
  • Alternativa E: Incorreta. O eu lírico não atribui crueldade aos mais velhos. Pelo contrário, ao afirmar que "éramos todos inocentes", ele isenta as gerações de maldade intencional, reconhecendo que agiam de acordo com o que a sociedade julgava correto.

Portanto, a alternativa que descreve perfeitamente o sentimento do eu lírico é a que reconhece as falhas do senso comum do passado.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2016 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.