Questão 28 do ENEM 2017Linguagens

ENEM 2017Linguagens2ª aplicação

Este mês, a reportagem de capa veio do meu umbigo. Ou melhor, veio de um mal-estar que comecei a sentir na barriga. Sou meio italiano, pizzaiolo dos bons, herdei de minha avó uma daquelas velhas máquinas de macarrão a manivela. Cresci à base de farinha de trigo. Aí, do nada, comecei a ter alergias respiratórias que também pareciam estar ligadas à minha dieta. Comecei a peregrinar por médicos. Os exames diziam que não tinha nada errado comigo. Mas eu sentia, pô. Encontrei a resposta numa nutricionista: eu tinha intolerância a glúten e a lactose. Arrivederci, pizza. Tchau, cervejinha.
Notei também que as prateleiras dos mercados de repente ficaram cheias de produtos que pareciam ser feitos para mim: leite, queijo e iogurte sem lactose, bolo, biscoito e macarrão sem glúten. E o mais incrível é que esse setor do mercado parece ser o que está mais cheio de gente. E não é só no Brasil. Parece ser em todo Ocidente industrializado. Inclusive na Itália.
O tal glúten está na boca do povo, mas não está fácil entender a real. De um lado, a imprensa popular faz um escarcéu, sem no entanto explicar o tema a fundo. De outro, muitos médicos ficam na defensiva, insinuando que isso tudo não passa de modismo, sem fundamento científico. Mas eu sei muito bem que não é só modismo — eu sinto na barriga.
O tema é um vespeiro — e por isso julgamos que era hora de meter a colher, para separar o joio do trigo e dar respostas confiáveis às dúvidas que todo mundo tem.

BURGIERMAN, D. R. Tem algo grande aí. Superinteressante, n. 335, jul. 2014 (adaptado)

O gênero editorial de revista contém estratégias argumentativas para convencer o público sobre a relevância da matéria de capa. No texto, considerando a maneira como o autor se dirige aos leitores, constitui uma característica da argumentação desenvolvida o(a)
relato pessoal, que especifica o debate do assunto abordado.
Resposta correta
B
exemplificação concreta, que desconstrói a generalidade dos fatos.
C
referência intertextual, que recorre a termos da gastronomia.
D
crítica direta, que denuncia o oportunismo das indústrias alimentícias.
E
vocabulário coloquial, que representa o estilo da revista.
Gabarito oficial: alternativa A

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar a estratégia argumentativa utilizada pelo autor no texto para convencer o leitor sobre a importância da matéria de capa da revista.

Logo no início do texto, o autor afirma: "Este mês, a reportagem de capa veio do meu umbigo. Ou melhor, veio de um mal-estar que comecei a sentir na barriga". A partir desse ponto, ele passa a narrar a sua própria experiência com a descoberta da intolerância ao glúten e à lactose. Ele menciona sua ascendência italiana, o hábito de comer massas e a peregrinação por médicos até encontrar o diagnóstico correto.

Essa escolha de expor uma vivência própria é o que chamamos de relato pessoal. Em textos argumentativos, como o editorial de uma revista, o relato pessoal é uma ferramenta poderosa. Ele serve para aproximar o leitor do tema, gerando empatia e mostrando que o assunto discutido não é apenas uma teoria distante ou um "modismo", mas algo real e palpável — como o próprio autor diz: "eu sinto na barriga". Assim, a experiência individual é usada para introduzir, especificar e justificar um debate muito mais amplo, que é o tema central da reportagem.

Vamos analisar por que as outras alternativas estão incorretas:

  • B) exemplificação concreta, que desconstrói a generalidade dos fatos: Embora o autor cite exemplos (como os produtos nas prateleiras), o eixo central da sua argumentação é a sua própria história, e não a desconstrução de fatos gerais por meio de exemplos isolados.
  • C) referência intertextual, que recorre a termos da gastronomia: O uso de palavras como "pizza" e "macarrão" faz parte do contexto da história do autor, mas não configura uma intertextualidade (que seria o diálogo direto com outros textos ou obras).
  • D) crítica direta, que denuncia o oportunismo das indústrias alimentícias: O autor nota que o mercado se adaptou e encheu as prateleiras de produtos sem glúten e sem lactose, mas ele não faz uma denúncia ou crítica a isso; ele apenas constata uma mudança no mercado.
  • E) vocabulário coloquial, que representa o estilo da revista: De fato, o texto apresenta marcas de coloquialidade ("pô", "meter a colher"), o que torna a leitura mais acessível. No entanto, o comando da questão pede a característica da argumentação usada para convencer o público da relevância da matéria, papel que é cumprido pelo relato pessoal, e não apenas pela escolha do vocabulário.

Portanto, a estratégia argumentativa que se destaca é o uso do relato pessoal para legitimar e especificar o debate proposto.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2017 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.