Questão 98 do ENEM 2012Linguagens

ENEM 2012Linguagens2ª aplicação

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir todas as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

COLASANTI, M. Eu sei, mas não devia. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.

A progressão é garantida nos textos por determinados recursos linguísticos, e pela conexão entre esses recursos e as ideias que eles expressam. Na crônica, a continuidade textual é construída, predominantemente, por meio
A
do emprego de vocabulário rebuscado, possibilitando a elegância do raciocínio.
da repetição de estruturas, garantindo o paralelismo sintático e de ideias.
Resposta correta
C
da apresentação de argumentos lógicos, constituindo blocos textuais independentes.
D
da ordenação de orações justapostas, dispondo as informações de modo paralelo.
E
da estruturação de frases ambíguas, construindo efeitos de sentido opostos.
Gabarito oficial: alternativa B

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar como a autora constrói a progressão das ideias no texto. Ao ler a crônica de Marina Colasanti, percebemos um ritmo muito marcado, quase como uma reação em cadeia. Vamos observar a estrutura das frases:

  • "E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora."
  • "E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir todas as cortinas."
  • "E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz."

Note que a autora repete intencionalmente a mesma construção sintática: a conjunção aditiva "E", seguida de uma oração causal iniciada por "porque", e finalizada com uma oração principal que traz a consequência ("logo se acostuma a...").

Na gramática e na construção textual, essa repetição de uma mesma estrutura morfológica ou sintática é chamada de paralelismo sintático. Esse recurso não apenas garante a coesão e a continuidade do texto, mas também reforça a ideia central da crônica: o ciclo vicioso e acumulativo do conformismo humano.

Vamos analisar por que as outras alternativas não se encaixam:

  • A alternativa A está incorreta porque o vocabulário utilizado é simples e cotidiano, não havendo o emprego de palavras rebuscadas.
  • A alternativa C falha ao afirmar que os blocos textuais são independentes. Pelo contrário, eles são totalmente dependentes e encadeados (a consequência de um evento vira a causa do próximo).
  • A alternativa D está incorreta porque as orações não são justapostas (ou seja, ligadas apenas por pontuação, sem conectivos). O texto faz uso farto de conectivos explícitos ("E", "porque", "logo").
  • A alternativa E é inválida, pois o texto é muito claro e direto, não havendo estruturação de frases ambíguas ou efeitos de sentido opostos.

Sendo assim, a continuidade textual é construída predominantemente pela repetição de estruturas, o que nos leva à alternativa correta.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2012 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.