Falavam-me sempre no perigo de subir à Favela. Nos seus terríveis valentes. Nos seus malandros que assaltam com a mesma facilidade com que se dá bom-dia.
O maior perigo que eu encontrei na Favela foi o risco, a cada passo, de despencar-me de lá de cima pela pedreira ou pelo morro abaixo.
Aquela gente, que não tem nada, dá uma profunda lição de alegria àqueles que têm tudo.
Sem higiene, sem conforto, naqueles pequeninos casebres [...], que se arriscam, a cada instante, a voar com o vento ou despencar-se lá de cima; aquela população de homens valentes — estivadores, carvoeiros, embarcadiços — e de mulheres anemiadas e fracas, e de crianças mal alimentadas e em trapos, cria porcos, bebe cachaça, toca cavaquinho e canta!...
COSTALLAT, B. Mistérios do Rio. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, Turismo e Esportes, 1990.