Questão 16 do ENEM 2020Linguagens

ENEM 2020Linguagens1ª aplicação

Fomos falar com o tal encarregado, depois com um engenheiro, depois com um supervisor que mandou chamar um engenheiro da nossa companhia, Esses homens são da sua companhia, engenheiro, ele falou, estão pedindo a conta. A companhia está empenhada nessa ponte, gente, falou o engenheiro, vocês não podem sair assim sem mais nem menos. Tinha uma serra circular cortando uns caíbros ali perto, então só dava pra falar quando a serra parava, e aquilo foi dando nos nervos.

Falei que a gente tinha o direito de sair quando a gente quisesse, e pronto. Nisso encostou em sujeito de paletó mas sem gravata, o engenheiro continuou falando e a serra cortando. Quando ele parou de falar, 50 Volts aproveitou uma parada da serra e falou que a gente não era bicho pra trabalhar daquele jeito; daí o supervisor falou que, se era falta de mulher, eles davam um jeito. O engenheiro falou que tinha mais de vinte companhias trabalhando na ponte, a maioria com prejuízo, porque era mais uma questão de honra, a gente tinha de acabar a ponte, a nossa companhia nunca ia esquecer nosso trabalho ali naquela ponte, um orgulho nacional.

PELLEGRINI, D. A maior ponte do mundo. In:

Melhores contos. São Paulo: Global, 2005.

As reivindicações dos operários, quanto às condições aviltantes de trabalho a que são submetidos, recebem algumas tentativas de neutralização dos representantes do empregador, das quais a mais forte é o(a)
A
sequência da atribuição de responsabilidades e de poder decisório a terceiros.
B
solicitação em nome dos prejuízos e compromissos para entrega da obra.
C
intimidação pela discreta presença de um agente de segurança na cena.
D
promessa de imediato atendimento da carência sexual dos operários.
apelo pela identificação com a empresa extensiva ao amor patriótico.
Resposta correta
Gabarito oficial: alternativa E

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar o diálogo e a situação de conflito apresentada no fragmento do conto de Domingos Pellegrini. O texto narra um embate clássico entre trabalhadores, que estão submetidos a condições degradantes (como fica claro na fala "a gente não era bicho pra trabalhar daquele jeito"), e os representantes da empresa (encarregado, supervisor e engenheiro), que tentam a todo custo impedir que os operários abandonem a obra.

Ao longo do texto, os representantes do empregador utilizam uma escalada de estratégias para tentar neutralizar a revolta dos trabalhadores:

  1. Apelo burocrático: Inicialmente, o engenheiro tenta usar a formalidade, dizendo que eles "não podem sair assim sem mais nem menos". Essa tentativa falha rapidamente.
  2. Ofensa e redução: O supervisor tenta deslegitimar a reivindicação por dignidade reduzindo-a a uma necessidade fisiológica, dizendo que "se era falta de mulher, eles davam um jeito". Essa é uma tática baixa e desrespeitosa, que não convence os operários.
  3. Apelo econômico: O engenheiro menciona que as companhias estão tendo "prejuízo", tentando gerar uma falsa empatia financeira.
  4. Apelo ideológico e patriótico: Como cartada final e mais elaborada, o engenheiro eleva o tom do discurso. Ele deixa de falar apenas sobre a empresa e passa a tratar a construção da ponte como uma "questão de honra" e um "orgulho nacional". Ele promete que a companhia "nunca ia esquecer nosso trabalho ali".

O comando da questão pede para identificarmos a tentativa mais forte de neutralização. Em análises de discurso, o apelo ideológico é considerado a ferramenta de persuasão mais poderosa, pois tenta cooptar a identidade do indivíduo. O engenheiro tenta transformar os operários — que estão sendo explorados — em "heróis da nação", mascarando as péssimas condições de trabalho com um falso sentimento de dever cívico e amor à pátria.

Analisando as alternativas:

  • A alternativa A foca na burocracia inicial de passar o problema de um chefe para outro, o que não é a tática de convencimento mais forte.
  • A alternativa B foca no apelo econômico (prejuízos), que é apenas um argumento secundário no discurso do engenheiro.
  • A alternativa C fala sobre o "sujeito de paletó mas sem gravata". Mesmo que ele seja um segurança, a intimidação física não é o foco principal da persuasão no texto, mas sim o discurso do engenheiro.
  • A alternativa D traz a fala ofensiva do supervisor, que é uma tentativa de desmoralização, não um argumento forte de convencimento.
  • A alternativa E descreve perfeitamente a estratégia final e mais sofisticada do engenheiro: fundir os interesses da empresa com o patriotismo para convencer os operários a aceitarem a exploração em nome de um "bem maior".

Portanto, a alternativa correta é a E.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2020 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.